sexta-feira, novembro 11, 2011

Dava para o vosso Tejo...


36 anos depois
Independência de Angola

11/11/975
a
11/11/11

Sabem quantas lágrimas verti desde este dia, senhor Mário Soares e comandita.............?

Dava para alimentar o vosso Tejo...

*
DESTE LADO OBSCURO

Sou camundongo, tão larga já a tristeza
anexa à vontade de regressar
tocar-lhe, pegar no meu último choro
e alterar no passado o destino do futuro
_ Imensidão de nada minha única riqueza
buscando noutras paragens teu ondular
fingindo em cada acto, decoro
sem mostrar o meu lado obscuro

Mas percorri a vida aprendendo
q’ o momento tem a duração da eternidade
ao permitir q’ se rompesse o aqueduto
q’ matava a sede, cobrando desgosto;
_  paguei vezes sem conta, não querendo
com versos, com insanidade
de branco colorido – mas sempre de luto
ao alvorecer; desde o sol-posto!

Ergui barreiras, pondo do lado de dentro
o corpo, do outro todo o meu lamento
carregando traços da força dum país

Fraca carne heróica razão, mas enfrento
a distância calcinada pelo tempo
dum relógio parado, perdida a foça motriz
 
Cito Loio

quinta-feira, novembro 10, 2011

O meu canto livre...!


Pergunto-me se alguma vez verei reconhecido, pouco que seja, o talento que em mim existe, se acaso terei de atravessar o Atlântico a nado para salvar os rascunhos onde escrevo as minhas tristezas. Talvez meus anos sejam encurtados, e com isso, consagrado a título póstumo como Poeta: nesse tempo já não terei mais voz para chorar a minha dor expressa neste triste fado, nem actuar onde as lágrimas jamais terão aplausos!

 
QUE GRANDE É O DESCONFORTO
(homenagem a Camões)

Não se entra num palco sem escrita,
falando duma dor q’ não é finita!
_ Teatro há com falas e alguma surdez
sons de palavras tantas, hinos de mudez
que até para dançar, por vezes bailar,
se dita! Antes de se coreografar

Para fazer poemas, também nos damos
corremos, gesticulamos, choramos
ao colocarmos a alma no palco da vida
muito mais larga, mais desdita
a qualquer que seja rua ou auto-estrada
que desemboque no fim dum nada

Escrever é, montar um cenário obscuro
ver sujo tudo q’ antes já fora puro;
_ Actuar onde as lágrimas não têm aplausos
esquecer os números clausus
saber q’ os fantasmas não pagam bilhete
mas vaiam qualquer forma de falsete!

Compor, é andar no tempo aos solavancos
rolar pelas encostas dos barrancos
assistir do banco da praça ao próprio final;
_ Catarse em sentimentos sem igual!
_ Poeta não é actor interpretando dor perdida,
ou a ilustrar originais, cópia empobrecida!

É maior, e para ser maior meu desconforto
Camões cantou tais, em qualquer porto...
... (e escrevia assim Luís Vaz)

«Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.»

Cito Loio
(Intemporal)

quarta-feira, novembro 09, 2011


terça-feira, novembro 08, 2011

Se é fogo que arde...!


SE O AMOR NÃO SE VÊ
 (homenagem a Camões)

Para Albertina, mãe e avó, neste 8 de Novembro, dia do seu aniversário; por ela este amor, e por toda a vida.

Se dizes q’ amor nenhum se vê arder
porque me incinera a saudade
q’ em cinzas transformada c' acuidade
cobre meu sonho, ao ‘anoutecer’!

Se agravos co' dizes, não fazem doer
porque rasa morno pelo rosto
alimentando rios, o pranto do desgosto
em fado triste d’ alma a padecer!

Porque escreveste o que não viste
se viria a saber o que sentiste
espelhado nesse semblante triste!

Que amor é, lenho verde a queimar
no imenso e insubmisso mar;
_ e dar-me, por me querer dar!

Cito Loio

Faria 115 anos...!



Poema (no feminino), homenagem às Grandes Mulheres que por terem ideais próprios e não se deixaram corromper foram Culpabilizadas/Condenadas.
Para elas cantado, o melhor Poema da Língua Portuguesa, do Maior Poeta de todos os tempos idos presente e vindouros

SÓ MAIS UM INVERNO


Idealismos numa vontade escondida
Construídos sobre castelos de fumo
Atiram-me para fora do rumo
Impelindo-me a dizer – não assumo
Demasia é expectativa falida

Calma, sento-me num sofá
Revivo histórias vendo quem está

Largo ao vento se houver derrota
Mas esqueçam! – não estou vencida
Q’ esta luta será mantida
Enquanto a vida não estiver perdida;
Matam o caudal? – Abro nova comporta!

Sim, fui traída, e agora feita adulta
Culpada, dum crime q’ não se indulta

E q’ crime fiz, de castigo merecedora
Se pecado foi, por mim, ser honesta
Não vender a alma numa palestra;
Sem amor, dar-me em qualquer festa
Gritar _ humana mesmo que perdedora!

Se condenada sem causa ao inferno
Permitam q’ viva mais um Inverno

Cito Loio
2-11-2011

segunda-feira, novembro 07, 2011

Alves Dias...


 
Vale a pena apreciar este trabalho de tapeçaria portuguesa. Muitas vezes esquecemo-nos do nosso vizinho e adquirimos bens de menor valia artística noutros paraísos, só porque trazem o carimbo internacional
Vamos, consuma que é Português
 

Sem mal que não me acontecesse...!


POEMA dedicado aos que como eu enterraram parte da sua alma em Angola sem mal que não nos acontecesse, de tal a profundidade dessas feridas que ainda hoje pagamos a «aventura de uns metropolitanos irresponsáveis», das mesmas famílias políticas que têm levado (afinal mais uma vez) este Portugal ao precipício.

SEM FALAS AO ALVORECER
(homenagem a Camões)

Tisnou o céu quando a mim arrancada
q' a ela o olhar não chegou a ver!
Guardei sua imagem, anos a padecer
até que minha alma foi trucidada

Intentei a espaços oferecer-lhe flores
sem lágrimas q’ alimentassem rios
com desgraças –  ter ébrios compadrios
se falasse ao alvorecer, de temores!

Mas mataram-me o tempo no tempo
impedindo-me que puro sentisse
tão lúgubre querença; e q’ a merecesse!

Quis Deus e o homem q’ desaparecesse
sem que dela me despedisse,
que cedo ma furtaram, e ao seu alento

Cito Loio
4 a 6 de Novembro 2011

domingo, novembro 06, 2011

Amores enterrados...!


*
FICOU ENTERRADO A SUL

Foste meretriz no alvorecer da idealidade
Ao lamber-te a rata contigo perfumada
Esfreguei-tos os pára-choques, cri q’ te viesses
Para no final gritares, q’ trombada Tarzan!

Senhores! Não s’ ofendam c’ a alacridade
Só expressa imagem duma apetitosa pranchada
E dum amor chorado em silenciosas preces
Sabendo q’ este empenho é vontade vã

E vós, q’ me insultais pela linguagem
Quantas vezes ao espelho – é uma miragem!
O amante? Antes de comidas pelo marido!

Perdoai a este falo q’ só pensa ser lambido;
Dado q’ o amor não aceita pénis azul
Digo-vos, à minha, enterrei-o na margem sul!


Cito Loio

sábado, novembro 05, 2011

Exposta drástica à dor...!


MORREU-ME A LIBERDADE
(homenagem a Camões)

*

Provei tantos lábios, forma cascata
invertida, em tavernas e acendia
dentro, o fogo ardente, e me consumia:
_ rasguei-me, ignorando o que mata!

Enlodei minha alma no sofrimento
amparado, gritava ébrio, estou borracho!
_ que caminho, se neste não te acho;
dá-te, para q’ não finde em tormento

Ela em chacota, de cartucheira ao peito
disparava obuses de amor
com ideais de igualdade e irmandade

Mas certo dia de uma noite sem jeito
expôs-se drástica à feição da dor!
_ morta, levou-me toda a liberdade.

Cito Loio

sexta-feira, novembro 04, 2011

Que a memória me consinta...!


Sem música, fotos, quadros, apenas versos meus...ai!

QUANDO À NOITE CEIFAVA O DIA
(homenagem a Camões)

E tu, que rogaste magoado a Deus
Por cedo de teus olhos a levar
Escreve de mim, q’ estes olhos meus
Nunca a minha puderam ver – ou tocar!

Canta ainda por não teres remédio
Que remedeie a dor de a teres perdido;
_ Se não for mau grado ou tédio
Põe no refrão o que em mim contido

E ao contemplares o escuro estrelado
Verás em cada astro, nome, Maria
Q’ cedo partiu em silêncio deste lado

E sem que soubesse tudo o que perdia
Não tive em conta sair magoado
Do desejo, quando à noite ceifava o dia

Cito Loio
3 e 4 de Novembro 2011

quinta-feira, novembro 03, 2011

A ti dono da pena,


NÃO ME ABANDONES

Não andei poeta meu,
Como tu descalço pela verdura
Meu chão recordo,
Era de terra escaldante e dura

Verdes? Teus prados
Como azul eram tuas bandeiras
Pois vermelho sangue
A cor das minhas brincadeiras

Tu cantaste às musas
Realeza de virgens donzelas
Eu perdi-me por aí
Nas sanzalas c’ algumas delas

Tu escolheste a pena
Como arma, grande escritor
Eu, a tua língua
E a vontade de ir além da dor

Usaste armaduras
E lança de bravo navegador
Eu? Usei a boina
Perdida, sem perder o fulgor

Tu cantaste pátria
Desde o reino ao largo império
Eu, cedido na praia
Chorei a dor do meu cemitério

Cito Loio

   
   

quarta-feira, novembro 02, 2011

A Deus no céu um sorriso complacente...!


Ontem 1º dia de Novembro, fez cinquenta e oito anos que num momento apenas se traçou o caminho sinuoso que iria percorrer até ao dia que se esgotassem as foças e o corpo se prostrasse exangue para sempre. Desde aquele longínquo momento, inventei os minutos com que fui construindo as horas que enfeitam uma história de punições, muitas lágrimas e alguma revolta.

Não guardo em foto o muro das lamentações, valas comuns do holocausto, campa no cemitério ou anúncio de uma missa de 7º dia!

Ao contrário, passeio um nome colado a mim cada vez que respondo quem sou; e sou um ser humano que correu pelos campos da adolescência, escorregou no castanho da juventude, e deitado em fazendas de algodão, contou todas as noites estrelas que formatavam o céu sabendo que desde aquele dia aumentara o número.

Dobrei a meia-idade, e agora mostro a Deus no Céu um Sorriso Complacente, e ao Mundo a Dor em Contos e Poemas.
 *

 ARRANHÕES GROSSEIROS

Quatro patas, correndo solto na picada
Às vezes parando, a olhar para trás;
Mancha em pêlo luzente, cauda arrebitada
Parecia chamar-me – anda, tu és capaz!

_ Au au au, grrr, atira-me esse pau!
Fuça arreganhada, eu fingindo cara de mau

Corria acompanhando o seu hábil trote
Brincadeiras na orla da floresta;
Por distracção, ‘amandava’ pedras à sorte
Q’ a vida era um sempre em festa

Pulávamos enxotando a bicharada
Diversão, vida fácil, merecia ser gozada

Mas voltávamos nem sempre inteiros
Encobrindo, debaixo do pêlo as feridas;
As minhas? Salvas em arranhões grosseiros
Desconhecendo q’ um dia seriam lidas!

Cito Loio
(01-11-2011)

terça-feira, novembro 01, 2011

A...1 de Novembro 1953 !


A casa está vazia, na minha alma há uma ferida profunda; falta-me um sorriso, o ...seu regaço para voar até ao infinito e ver o seu sorriso iluminar o firmamento.
Sim, a casa dentro do meu peito só tem uma aurícula; faltou o ventrículo onde ela se alojaria para depois passear diariamente pelas alamedas do meu pensamento. Tão vazia que adormeço flutuando na esperança, gasta que está a minha cama de tanto lutar contra a ausência.
 
E eu, tão só, tão vazio, como vazio está o meu olhar perdido nos caminhos da procura...sem a encontrar

VOZ DO MEU CHORO

Esta é a voz do meu choro
Sem lágrimas, sem peito ou leite
Grito calado – mãe, q’ padecimento!

_ O q’ feito foi, para tanto sofrer
Se para te merecer no céu
Tiver de caminhar sobre espinhos!

_ Ter nas chagas continuado soro
Mãos em sangue cravos do teu deleite;
Buscar na loucura, alimento?

_ Ó Satanás que afronta te fez doer
Para lançares venenoso véu,
Rasteiras, em íngremes caminhos!


Cito Loio
28/10/2011 a 01/11 2011

sexta-feira, outubro 28, 2011

NÃO PARARÁ DE TOCAR

28-10-2011
(58º aniversário)



NÃO PARARÁ DE TOCAR

Ousei pintar numa tela imaginária amplo salão
Pincelando um encerado palco giratório
Espalhando no ar mil colunas estereofónicas;
Atravessei o corredor – palmas da plateia!

Ao fundo em trono de rainha, estendeu a mão
Piscar de olho, um vem! – Fui, por ser obrigatório
Conceder-lhe tangos em valsas sinfónicas;
_ Ao pegar numa nova tela senti de poeta a veia

Escrevi os corpos em rodopio, retoquei o esboço
Sua mão no meu ombro, a minha à sua cintura;
Colei-me ao rosto, fez-se silêncio nessa altura

Num passo doble evitei cavar-se sombrio fosso
Entre o quadro imaginado, e o desejo forte
De te perpetuar em verso, para além da morte

Cito Loio

quinta-feira, outubro 27, 2011

Acordo do Alvor..!


 
Espero que apreciem este conto, senhores dos “Acordos” do Alvor...

NUNCA DISSEMOS ADEUS

Mil novecentos e setenta e um, batiam as 18 horas da tarde, chegava a casa vindo de mais um treino no Clube de Ténis de Luanda, sito nos Coqueiros paredes-meias com o Sporting Clube de Luanda, onde a convite do meu amigo Cadavez e treinador da selecção de andebol do Liceu Nacional Salvado Correia onde também jogava, aceitei treinar na equipa de basquetebol dos lagartos, para tristeza dos meus primos que eram militantes e jogadores da equipa do Benfica de Luanda, que viria a ser campeã nacional.
 
Preparava-me para um torneio de ténis no escalão sénior, que se iniciava no sábado, estando convicto alcançar as meias finais ou mesmo a final, dependendo do lado do quadro em que o sorteio colocasse Daniel de Freitas, o melhor de todos e meu treinador.

Nesse tarde chegara mais cedo que o costume trazido pelo pai do meu colega e parceiro de pares Daniel Costa, que mais tarde e já em Portugal viria a ser treinador de João Cunha e Silva. Antes de me dirigir a casa passei logicamente pela pastelaria Kitanda a inteirar-me da malamba – parecia estar tudo fixe; uma cola, três dedos de parlaié e bazei para o kimbo

Estranhamente a porta de entrada da vivenda estava fechada, caso raro, porque Dona Albertina só fechava a porta que dava acesso ao jardim da frente quando se ausentavam todos, incluindo o Tadeu Trindade; este não era muito de fiar porque se a patroa lhe desse largas metia no quarto do meu pai um dos engates de rua. Se a curiosidade mata o rato a mim deixou alerta; a vivenda onde morava a minha tia Alice, casada em segundas núpcias, já quarentona, com o meu tio Gordo, também se encontrava encerrada. Não me apercebi de qualquer alarido indicando que a moribunda guerra ultramarina tivesse renascido e muito menos na zona do asfalto.

Entrei, sentei-me na sala sem sequer subir ao primeiro andar; passados cerca de dez minutos ouvi bater na porta das traseiras – era uma das vizinhas, dona Linocas Vinhais, que com um ar de infelicidade e a custo lá foi tentando explicar o que era fácil prático e rápido de dizer: Cito, o teu avô morreu.
Estremeci, senti os olhos emudecerem, uns lábios darem um beijo, uma mão afagar os cabelos. Já sentados no sofá, puxou-me até me deitar a cabeça no seu colo. Foram longos os minutos, tão longos que os ponteiros do relógio pareciam usar bengala a cada volta. Mesmo que fossem breves segundos, o meu pensamento voou à velocidade que o cérebro conseguia trazer ao consciente tudo o que de mais grato guardara do velho; principalmente as patifarias que lhe fazia na casa grande, a da grande gajajeira.

Passaram horas, descera a noite há muito, quando a minha avó e os seus filhos noras sobrinhos-netos bisnetos chegaram a casa. Olhei para a sua cara, e a fisionomia não apresentava qualquer alteração que não fosse a expressão normal, quando não havia festança. Nada se passara, estranho, numa mulher que já comemorara as bodas de ouro, que se vestira de virgem no casamento, os únicos homens que conhecera nus fora o marido, os irmãos mais novos quando lhes dava banho, os filhos e o sacaninha do neto.

Nem uma lágrima vertera na morgue segundo me disse a minha prima Belinha; viera a casa tomar banho, vestir-se de luto e regressar para a vigília ao mesmo tempo que dizia ser o jantar servido às oito em ponto. Percebi mais tarde que efectivamente aquela mulher, já para além dos setenta anos, mãe de cinco filhos vivos do mesmo pai, não dissera adeus ao seu marido, apenas um até já. Depois do jantar, dei a entender que queria ir com eles até a igreja – fui proibido com um não. Só mais tarde consegui compreender a sua atitude.
A vida decorreu normal a partir do dia seguinte ao que se realizou o funeral que teve lugar no cemitério do bairro Miramar, destinado aos e Combatentes da Grande Guerra de 14 a 18 contra a Alemanha; nesse fim-de-semana o torneio correu-me mal, não atinava com as linhas, com a altura da rede, e a cor branca das bolas pareciam pombas tolas. 

Passaram os anos e fui crescendo, fazendo-me homem nos intervalos duma saudável loucura de fim de juventude, até ao dia em que vesti uma farda dum exército que lutava a favor da manutenção da guerra dita colonial, já terminada naquelas bandas, apenas prolongada para justificar a permanência dos militares da Metrópole e das regalias e mordomias obtidas com as campanhas feitas nas messes de sargentos e oficiais, até ao dia que em Portugal meia dúzia de capitães entenderam colocar um ponto final no Marcelismo.

Entráramos em mil novecentos e setenta e cinco, as Acácias mantinham-se inalteráveis as pessoas abalavam os cães ainda latiam o Tadeu Trindade metia-se em sarilhos policiais, e eu, jovem adulto envergava diariamente um par de calas azuis, uma camisa branca com dobrados, e dormindo bastas vezes no monta-cargas em plena placa do aeroporto Craveiro Lopes situado ao cimo da Avenida Lisboa, com início no largo da Maianga passando pela morgue, e sem contar as horas

Por vezes deslocava-me de Mercedes 230 S outras de Cortina – o meu amigo ‘Barrabás’ tipo afável e de barba cerrada, dera-me como paga numa jogatina de poker, a doer, um Escort 1300; como fazia muito chinfrim, sobretudo de madrugada quando regressava ao lar ou dava uma saltada ao ainda aberto Flamingo na esquina da recta que antecedia a ponte da Restinga, deixava-o no parque de estacionamento do prédio da CUA frente ao largo Maria da Fonte, onde tinha um ‘apartment’ para a desbunda. Dele vias as palmeiras da Marginal duma Luanda que se entristecia, e que pareciam impávidas perante o descalabro que se adivinhava dia a dia, talvez emudecidas perante o choque de perspectivarem a traição a que assistiam do alto das suas copas, ao mesmo tempo que desde sua casa, Albertina via partir filhos netos familiares e os amigos que como ela tinham navegado em direcção a terras africanas – três filhos estavam já em Portugal restando Manuel o ‘Lei’ e José o ‘Gordo’, exactamente o mais velho e o mais novo dos filhos homens. Apenas restávamos quatro, excluindo os familiares por parte da família da nora, Carmito
Manuel ficara por causa da empresa e duma sepultura; José pensando que a metrópole não lhe daria condições de vida satisfatórias, e sempre tendo emprego como redactor no jornal Diário de Luanda, decidira que só regressaria a Portugal se a mãe falecesse dado que esta se negara a abandonar Angola; tinham a certeza que nada de mal lhes poderia acontecer por causa duma ‘independênciazinha’ que estava à vista. Eram Angolanos de coração e mestiços por afinidade.

Naquela noite de Julho, eu jantava em casa; estivera uma semana em trabalho de ‘Chefia de Escala’ no Terminal de Carga do aeroporto da cidade de Lobito. Contei quatro à mesa, se bem que por vezes desse para perceber só três ou nenhum, quando o pensamento voava para coisas que magoavam – ausências que agora provocavam maior dor. Olhei a minha avó, vi-a envelhecida sem que tivesse dado conta até então; era um daqueles netos, como quase todos os do meu tempo, que quando tomávamos consciência a nossa avó já era velha, e para nós meninos desabridos no calor da cidade, os velhos não envelhecem – e pronto. Mas estava, e mais que os olhos era o coração que mo dissera, por também me sentir envelhecido aos 22 anos, traído e esgotado pelas cenas ‘holocausticas’ que assistia diariamente no ‘átrio do aeroporto’, onde se amontoava entre farrapos, alguns ‘farrapilhas’ ao lado de muta gente boa e honesta.

A minha vida familiar ecoava à velocidade das torrentes lamacentas que no início da década de sessenta desciam das bandas da Vila Alice até à avenida Sá da Bandeira, e entravam em enxurrada elo quintal dentro – para azar do meu falecido avô a nossa casa fazia gaveto e levava com tudo, até com penicos; com ela via partir amigos e familiares, outros desaparecendo na neblina dos Movimentos de Libertação que o exército português mandado ir da metrópole para substituir os que lá estavam e eventualmente não estivessem para goladas de estado, reabilitara – começava a sentir-me jovialmente sozinho!

O meu avô chegara a Angola oito anos antes da minha avó; quase uma eternidade o tempo em ficara que ainda nova só e com cinco filhos, quatro deles menores, a que somava aos quatro anos mais desde que o marido falecera _ meia dúzia de anos, nada é quando se leva 78 a fazer num próximo 8 de Novembro, assim pensava eu, provavelmente por ainda desconhecer as dores duma ossada ao levantar pela manhã.

O jantar começou à hora de sempre, com excepção da consoada, e naquele momento vendo que ninguém faltava, dos vivos, fiz a pergunta que guardara nos últimos anos.

_ Mãe, nunca a vi chorar nem na morte do meu avô! Nem uma lágrima um adeus! Que sentia por ele?

Silêncio absoluto; daria para escutar os sinos da Igreja Sagrada família se acaso ainda tocassem nessa altura, anunciando a destruição de todas as bíblias do universo. Silêncio nunca visto, sem cor, sem voz.

O meu tio olhava-me estupefacto, e se o cachimbo estivesse na boca o homem ter-se-ia engasgado. O meu pai parecia ter escutado a Abertura 1812 de Tchaikovky e antes que interviesse, por ter demorado, talvez procurando as palavras certas a dirigir a um filho que já não era propriamente um imberbe, Albertina, mãe dele, fez-lhe sinal para não falar, apenas com o olhar. África toda estava dentro do meu peito, não me dando conta, nem eles, que aquela mulher já enterrara parte da sua alma no chão duma terra que tomara como sua, e há muito decidira que o seu corpo ficaria junto ao do seu marido. O olhar lançado ao filho mais novo era inequívoco; a pergunta fora-lhe dirigida, e nunca lhe reconheceria o direito de julgar os seus próprios sentimentos. Respondeu-me sem olhar.

_ Lágrimas só se vêm quando os olhos as mostram e adeus diz-se aos que partem para sempre...

Olhei os dois homens sentados comigo à mesa; podia escrever uma série de adjectivos caros classificando-os, daqueles que se vai ao dicionário procurar se quisermos dar uma de eruditos, mas só uma frase passeou pelo meu cérebro – ‘caras de parvo’. Albertina já encerrara o compêndio da filosofia e numa frase explanara toda a ciência empírica das suas sete décadas de vida; ela própria filósofa e psicóloga na criação dos filhos netos bisnetos e afins, doutorada em dor, historiadora da guerra contra a ausência.
Aquela minha única avó era verdadeiramente a minha mãe, a maior das minhas mães, mãe a dobrar a triplicar elevada à infinita potência. Rompera-me a tampa do caixão onde sepultara durante anos a dor da orfandade; pela primeira vez dera conta que à minha mãe carnal nunca lhe diria adeus, porque aquela suspendera a sua vida para tratar do ‘filho’ em lugar de uma mulher que a incúria dos homens matara. Numa dissera adeus porque nunca permitira que partisse para sempre.

No seu prato vi uma batata cozida e um pouco de brócolos; Albertina raramente comia peixe e desde a morte do marido nunca mais comera carne. Nunca lhe perguntei sobre aquele tipo de alimentação. Com um sinal, respeitando o silêncio, deixei entender a necessidade de me ausentar e ela anuiu, num encolher de ombros.

Subi ao primeiro andar e já no meu quarto deixei ecoar ela casa um berro alucinante seguido duma triste gargalhada. Ninguém se levantaria da mesa a ver o que se passara – ela não o permitiria; sabia porque sentira que cada abraço, cada beijo, cada reprimenda que me dera, trazia aportado uma cor morena, e um calor que alguma mulher me daria por longa que fosse a minha vida. O significado da palavra mãe não o encontraria no dicionário ou nas fotos das barrigas de grávidas. Fora-me impresso na pele.

Era uma noite de cacimbo, estando no entanto ameno o tempo. Julho depressa se esgotaria, Setembro anunciara-se ainda mais triste, não querendo prometer o início do verão, a vida quase insuportável, o trabalho atingira o zénite da minha capacidade, as provocações anunciaram-se e com elas a dúvida. No entanto a vida para Manuel, José, e sobretudo Albertina continuava inexoravelmente pacífica. Havia muita gente que os defenderia; para mim a situação degradava-se à medida que Outubro avançava, não me passando pela cabeça que o fim estaria no virar duma curva, ao anoitecer, no regresso dum ‘muceque’ ou na bala duma G3 das FMA’s! 

A pressão interna no aeroporto e fora dele era notória, mas o cumprimento do dever estava acima de diferendos ou de agressões verbais. Novembro, estava a caminho...
Já noite, cheguei a casa por volta das 19 h, hora do relógio do carro; queria tomar banho mudar de roupa, por ter mais um voo para carregar, o tempo escassear e ter programado não voltar antes das oito da manhã seguinte. Estranhei ver o carro de ‘tio’ Nuno, director de carga da TAAG lá em casa e àquela hora, mas mais estanhei o meu saco de lona na sala. Não me deram tempo para pensar o que teria acontecido. Nuno Viegas Vaz estendeu-me a mão sujeitando uma passagem de avião sem destino, para o voo da meia-noite e meia, e um frase apenas.

_ Não digas a ninguém que embarcas hoje nada de telefonemas nem à chegada, que alguém te contactará pessoalmente dentro de dias.

Rapidamente passou-me pela cabeça mil e um cenários, afastados de pronto para não cometer nenhuma loucura. Sabia as razões daquela partida apressada, a vontade de ficar mas também a certeza que não me deixariam, pelo menos vivo. Olhei para os presentes e perguntei se ‘havia tempo’ de tomar banho; já que deixava a minha terra ao menos que fosse de corpo lavado, pois a alma estava completamente ensanguentada. Demorei pouco mais de cinco minutos a descer do quarto.

_ Levo o Escort, estaciono-o no parque público do aeroporto; se o roubarem também não levam grande coisa. Vou rápido, ainda tenho muitas paletes para carregar no ‘meu voo’.

Peguei no saco, olhei pela última vez aquela casa como se quisesse fotografar cada milímetro de parede, ao mesmo tempo que me dirigia para saída. Não conhecia o significado de saudade, apenas de ausência. Sabia que não podia dizer adeus, que essa palavra só se diz quando alguém parte de vez. Albertina tinha 78 anos e sentada no seu cadeirão apenas abanou com a cabeça um sim!

Nunca mais nos veríamos nunca mais falaríamos, nunca mais nos tocaríamos; mas aquele amor era indestrutível – nunca diríamos adeus.


Adolfo Inácio Castelbranco d’ Oliveira
Porto 25 de Outubro de 2011

 
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