quinta-feira, agosto 13, 2015

O Pedregulho





O
PEDREGULHO




Bamboleando, deixava ver-se um reflexo semelhante ao de uma asa de corvo quando incidiam raios do sol ao nascer do dia num esvoaçar imaginário excitada pela aragem que se fazia sentir na orla marítima e que mais tarde aumentaria como um por de sol tropical. O espectáculo que a pequena ondulação construía para além de pano de fundo enfatizava o andar que podia considerar-se um bailado de execução irrepreensível de uma primeira bailarina do Bolshoi. Coisa alguma parecia perturbá-la; os meninos a levantar e atirar areia para os banhistas alapados nas toalhas a bronzearem os corpos quando chutavam as bolas imaginando-se CR7’s, os pares de namorados a beijarem-se enquanto untavam a pele com protectores factor 30 elas aspirando a modelos eles a galãs de telenovela, os pais aborrecidos com as mães por terem de aturar as sogras que intrusamente se metiam nas férias, os avós arrepiados com os mergulhos dos ‘ai jesus’ das suas vidas, os empresários falidos deitando contas aos prejuízos, os salvadores nadadores por irem iniciar mais uma pasmaceira pois há 10 anos que ninguém se afogava naquelas praias, nem sequer os donos de animais que sem os donos darem conta faziam necessidades na mesma areia onde as pessoas se rebolavam mas que aqueles civicamente tratavam de apanhar os dejectos.

Ninguém poderia saber ou imaginar o que ia naquela cabeça, que sentimento nutria pelos que lhe eram próximo, em que partido pudesse votaria, qual o clube do seu coração, gostava ou não de corridas de touros e do show hilariante dos toureiros a espetarem farpas no dorsos dos animais; talvez nem soubesse porque existiam estrelas no céu ou porque o sol queimava outras vezes não; incluso, podia estalar a 15ª guerra total, colidirem os continentes no maior desastre geológico cresceram glaciares ao longo da zona tórrida correrem rios da foz para levante, desde que não elegessem para os governos nacionais um animal de 4 patas a vida continuaria perfeita e o mundo em equilíbrio.

Passados brevíssimos minutos parou junto a um “pequeno pedregulho que se banhava cada vez que uma onda rebelde enrolava a areia e ansiava refrescar os buracos dos caranguejos” olhando fixamente para lá donde a vista humana alcança – Teria dotes de visão extra-sensorial que permitiam ver o bailado das toninhas nas águas profundamente azuladas do oceano – interrogava-se um pseudo turista à procura do que não tinha na sua terra e continuava – A mente às vezes vai para além e quiçá seja este o caso dum cérebro extra dimensional e capacita os sentidos irem para além do racionalismo do subterfúgio comum ou a justificação positivista sobre mundos paralelos onde cada ser encontra correspondência numa outra galáxia ainda desconhecida para os cientistas dos mais evoluídos laboratórios mundiais onde se pesquisa a vida para além da existência terrestre – desabafava cofiando a barba rala avistando para lá do paredão da esplanada colocada no areal com pequenos candeeiros que se acenderiam mal a noite chegasse e pertencente a um dos vários hotéis que se estendiam pela avenida principal a velha Yafo, e no molhe de rochas, 3 pescadores amadores de cana empunhada lançando de volta o peixe para a água sempre que este não atingia o tamanho legal.

Kasteliev Adraan conhecia aquelas areias, as águas, os donos das embarcações de luxo ancorados na marina fronteiriça aos hotéis, as pessoas que usualmente passeavam os animais de estimação que a passo de trote gozavam a liberdade de poderem ostentar as trelas fora dos jardins particulares circundados por muros erguidos pelos homens afim de garantirem a sua liberdade, servindo esse cuidado também para preservarem os que se enjaulavam e depois de amestrados, faziam as delícias do público em circos de ocasião onde os anões eram palhaços e os mestres de cerimónia maquilhavam-se à falta de cash para operações estéticas, como alguns apresentadoras de televisão, escondendo os saltimbancos para lá dos 50 as rugas compradas nas tendas de pagamento do seu baixo salário sem descontos para a segurança social, em retribuição dos espectáculos levados à cena em praças de terra batida, alguns mesmo obrigando os contorcionistas passarem pelo coador da vida e o que de magro esta lhes oferecia.

Kasteliev desandou do bar onde estivera até momentos antes a degustar o seu breakfast como se fosse Sabat dirigindo-se pausadamente para o pedregulho que antecedia o paredão contando o número de veleiros ancorados na primeira marina. 12 era o número; espreitou o telemóvel e coincidente a data registava 12 de Agosto 2015 e a pouco menos de 3 metros do pedregulho que desafiava a ondulação com intrepidez estremeceu – fizera um ano, precisamente naquele mesmo dia, que recebera uma chamada telefónica do seu grande amigo Rochoff Kardosio Luyssin alertando-o sobre a ocorrência da morte de Nuksädiha e ficara para morrer.

Não esperava com uma notícia da natureza daquela e que a cadela tivesse morrido sem que Arievilova Marianiska nada lhe dissesse, reflectindo as razões do silêncio e concluíra na altura que escondera a situação para evitar que ele lhe consumisse a paciência e a forçasse a mandar abatê-la. Nesse dia ligou para Arievilova a criticá-la por não lhe ter dado conhecimento do que se estava a passar recordando que fora incapaz de disfarçar o estado de choro com que articulava as palavras; – Os homens não choram…deve ter sido impressão tua – comentava-lhe um amigo na altura, mas na realidade sentira-se enlutado pela cadela mais do que pela traição por parte da dona, algo que já para si não constava da lista das dúvidas.

Ao recordar o episódio percebera que tremia e um incómodo suor escorria pela face e fechou os olhos já com os pés dentro das águas cálidas do Mediterrâneo refilando por não se ter descalçado; trazia calçado socas de borracha usadas quando ia para a praia surgindo um forte anelo de se atirar vestido para o mar, refrescar o pensamento, lavar as mágoa, condenando-se ao mesmo tempo por ainda não ter em definitivo exaurido o que sentia por Arievilova mais do que ter preterido o convite da sua prima Bibianina Oliveisaka que por força do destino se separara, para que fosse morar consigo e Francsoov Candevsky único filho, o que seria benéfico para ela não tanto pelo dinheiro de renda que não precisava mas pela companhia e um certo apoio num momento que seria complicado com o filho a entrar no campo das desbundas universitárias tanto mais que já lá morara durante um ano o que seria no fundo um regresso ao seio familiar, optando porém alugar uma pequena casa na esperança de uma futura reunião.

Na linha do horizonte dum mar onde dentro de algumas horas o sol se despediria da terra do médio oriente a caminho das antípodas, embarcações de média tonelagem navegavam legalmente em águas internacionais levando fugitivos provindos de países em que estalara uma novo e horripilante cruzada contra o ímpio cristão. Kasteliev até podia perceber as razões mas condenava a barbárie muito mais a decapitação de pessoas frente a câmaras de TV para posterior transmissão ao público infiel, e pensava como reagiria essa gente se os ocidentais mandassem ás malvas os conceitos humanísticos e tomassem iguais medidas ou piores. Como pacifista sempre vira a violência inimiga condenável desde o tempo da ascensão dos antigos impérios, mas tratou de varrer esses pensamentos já bastando ter vindo à memória o acontecimento do ano anterior.

Perdido noutros, recordava-se dos torneios de malha em que participara décadas atrás, e criticou-se por não ter escolhido por desporto preferido o JDGF «Jogos De Gráficos Financeiros» sempre melhor em termos de reforma que seria provavelmente equivalente ao que auferiam os políticos profissionais que decidiam nos gabinetes intervenções nos Golans. Era contra a guerra, mas também admitia que os palestinos não ajudavam à missa para que a paz fosse pacífica; entre os seus amigos comentava-se, falecido Arafat, o conflito Israelo-Árabe desabava e Israelitas e Palestinos ergueriam finalmente uma pátria comum e que Cristo no Santo Sepulcro agradeceria pois desde que os tiros tinham começado nunca mais pudera descansar na paz do Senhor. Infelizmente, 13 anos após a última copofonia com os atletas do «Malha Clube» a situação por aquelas paragens mantinha-se inalterável, ou a tendendo a piorar.

Subitamente, como se esvaziasse a praia, Kasteliev deu conta dum silêncio absoluto a apoderar-se do espaço em seu redor; as três pessoas que pescavam no paredão tinham-se milagrosamente evaporado, o Mediterrâneo transformado num mar-chão quase espelho do etéreo, as embarcações ao largo da costa hasteando bandeiras brancas ao mesmo tempo que um silvo, um assobio calculado atravessava a atmosfera sublinhando o silêncio. Fora um som similar ao que tantas vezes lançara em desafio a Nuksädiha e que o obrigou a virar-se repentinamente procurando a origem do som. Junto ao pedregulho sobranceiro ao mar uma cadela que abanava a cauda, também asa de corvo, por puro contentamento. Perante um segundo chamamento sibilar desatou numa correria só parando junto a um casal de pé limpando a areia da praia com as toalhas de banho.

Tal como Jesus caminhando pelas pedras sobre o mar não vira o quadro que o pintor pusera em tela depois da Última Ceia, igualmente Kasteliev não descortinara qualquer cão parado perto do ‘pequeno pedregulho que se banhava cada vez que uma onda rebelde enrolava a areia e ansiava refrescar os buracos dos caranguejos’. Milagres não contavam para a sua religião e a fé contendo-os há muito deixara de constituir doutrina, valorizando até crenças e ditados na medida do valor que se lhes devia ser atribuído, mas sentiu o rosto ligeiramente molhado limpando de imediato com a palma da mão uma pequena e teimosa lágrima que se atrevera a desafiar um dos mais populares ditados que o homem inventara, e ele, sabia-se um homem de verdade.


Inácio
12/08/2015


sexta-feira, julho 31, 2015

TURISMO MILITAR


«O Governo (português)  vai lançar uma rede de turismo militar, que abrange infra-estruturas em todo o país e nos países de língua portuguesa, para divulgar ...»

Perante tal notícia que elogio, como sou homem de causas quero participar nesta iniciativa de forma que nada fique esquecido na história turística militar sobretudo na parte final do Estado Novo

POR NINHARIAS
  
Compreendia as “amélias” de militares
mulherame que se dava a bons ares
desfilando no poeirento Bairro Operário
servindo soldados de trato ordinário

Mas detestava tipas de “permanente”
acompanhantes de tropa de alta patente
enriquecida por comissões no Ultramar
adquirindo vivendas…à beira mar.

E ainda hoje detesto heróis de secretaria
pela pena que sentia das prostitutas
mais honestas que as doutas e astutas

Umas vendiam ‘corpo por uma ninharia
lavando o sexo com água de poças,
as outras, eram por natureza porcas.

( Finda a guerra os magalas recordavam a gonorreia.
- Os oficiais-superiores fartavam-se das esposas à ceia)


Cito Loio
31/7/2015


sexta-feira, julho 24, 2015

FINDO O CONTO MÃE





FINDO O CONTO MÃE



Hoje, caída intempestiva carga d’água

não vi levar tristezas em que m’afogo

nem branquear ‘negro desta mágoa

invadindo-me se à paz ajoelhado rogo



As pingas, num gotejar já solene

molham ao vento com emoção

os sonhos em que à noite me perco

sem orar c’ bíblias – contas dum rosário,

e num desejo simples, seguro o leme

coloco lenços à janela da escuridão

espanando o amor quando me acerco

meta à vista deste viver solitário



Hoje mãe, estende do céu macio xaile

para que possa finalmente adormecer

cansado de vaguear por tanto baile

sem que ninguém me quisesse prender.



- Avisa Carmito que será mui pronto

ter-me a seu colo, findo o último conto…




Cito Loio

Inácio

2015

quarta-feira, julho 22, 2015

Mentirosa


 MENTIROSA
 (Do tempo dos biberões de vidro)
Parte desta história foi contada por uma senhora que ia envelhecendo pelas arrelias causadas pelo neto candengue mas que quase sempre desculpava às vezes protegia vá saber-se porquê. A outra confidenciou-ma um amigo de sempre que foi crescendo comigo, arquivando numa só memória muitas estroinices passadas juntos, e mantendo sigilo para evitar queixas ao ministério público decidi atribuir um nome fictício ao personagem principal e que será na extensão do conto o Reguila Candengue.
Todos a postos para engolirem o conteúdo? Comecemos então a narrativa.


  
I

O personagem ocupava naquele tempo o quarto da frente da vivenda que dava para a avenida principal com varanda para a perdição, e mesmo que não conseguisse ver todas as vizinhas a vestirem os pijamas através dos cortinados das largas janelas deixava vaguear a mente de criança pelo imaginário depois de desfolhadas revistas da Playboy ou coisa parecida, ou ainda visualizando filmes de 8 mm com cenas porno proibidas para a idade; mas como miúdo estava, como os seus amigos, catando-se para a pidesca ou um qualquer cipaio armado em polícia política do Estado Novo.

O quarto (convém referir) tinha 3 janelas e duas portas, aliás como seria natural pois ninguém estará a imaginar um gajo entrar no dormitório pela “varanda”, e numa área útil de cerca de 30 m2 coisa grande para hoje normal para o passado, equipado com cama guarda-fatos cómoda mesa-de-cabeceira e espaço para dominar a bola quando lhe desse na telha, paredes pintadas de creme encardido com tanto chuto, candeeiro de tecto ou lustre em risco para além de cortinas curiosamente sempre abertas, razão que se desconhece.

Para ir do quarto para o resto da mansão, chamo-lhe assim para dar um ar snob ao Reguila, havia várias opções, e como os leitores modernos apreciam palha nos conteúdos dos romances e coisas que tais, explanarei as vias de acesso, mas depois não digam ser enfadonho este tipo de descrição.

Comecemos pela «Via A» o acesso mais protegido pois como descrito o quarto tinha duas portas e uma delas, a desta via, dava para os aposentos do pai que por sua vez ligava-se a um corredor onde fora colocado um cesto de papéis aramado no umbral da porta que dava para o salão envidraçado para que o sacaninha pudesse executar cestos de meia distância e afundanços tipo NBA, pois o man era maluco por basket para além de futebol-de-quintal-ou-de-largo, calça aos matondos (não sabem o que é e ficam a saber o mesmo pois não desvendo, enfim tudo o que lhe desse gozo sem ditadoras de régua em punho muito menos numa sala de aulas do colégio privado em que andava, unidade de ensino com óptimas professoras melhores coleguinhas já que mesmo aos nove anos um tipo como ele gostava de olhar os caniços das meninas.
A «Via B» era pela porta que dava acesso à tal varanda, térrea, que por sua vez apresentava 3 opções; B1 descida pelas escadas da esquerda e que davam para a parte do quintal onde costumava jogar as futeboladas com amigos e os cães, ladear depois a vivenda (agora facilito a escrita) e entrar para o salão pelas porta da cozinha exterior enquanto que a opção B2 seria descer as escadas do lado direito da varanda e fazer o percurso no lado contrário ao descrito em B1. Havia outras Bñ mas eram a conjugação das anteriores e a sua explanação nada aporta de interesse à história muito menos ao que de facto este conto encerrar, podendo no entanto quem quiser imaginar o miúdo a subir ao telhado para chegar ao destino, partir uma telha e levar com o avô a correr atrás do fedelho de vassoura em riste, e o desalmado a rir-se, isto na melhor das hipóteses pois às vezes o azar bate à porta e uma queda da altura de 5/6 metros ou mais pode ser fatal, mas a verdade é que tal nunca aconteceu, pois se bem que o personagem fosse desabrido não constava que fosse tolo.

Não passava no fundo de um dos muitos meninos que o sol do hemisfério sul torrara a pele, que se sentava à volta da fogueira, tendo também um olhar brilhante quer oferecia natural encanto e em simultâneo uma expressão estranhamente amarga quando se aproximava do guarda-fatos colocado num dos cantos do quarto. Por vezes, em tardes de Domingo isolava-se enxotando o papão antes de abrir o gavetão dado não querer partilhar com o demónio as fotos guardadas entre livros de colecção 6 balas contos do Batman Super-Homem ou Tarzan, e pegando numa foto rolava pelo chão encerado, sem ficar farto. Eram momentos de revolta agnóstica descobrindo-se na fronte ainda sem rugas o sítio onde um dia se poderia ver a cor e o formato da tristeza.

Ninguém diria, nem eu, aliás como todos os seus amiguinhos, que aquele miúdo que soltava contagiantes gargalhadas secretamente as matizasse com uma dor enigmática. À sua volta tinham erguido uma espécie de muralha da China separando a infância do holocausto que constituíra o seu nascimento, uma protecção divina com base num Deus que ele crescendo foi-lhe decretando morte anunciada por execução irrevogável, não obstante as bíblias proliferarem pela casa e no quadro da Última Ceia onde estranhava só estarem homens julgando que as mulheres ainda estavam na cozinha a preparar a janta para aqueles marmanjões com ar de pescadores das bancas do mercado Vaticano, somado ao facto de a cada sábado a avó ir à missa numa igreja que distava 3 minutos de casa (para ele) em passo caracol, e as beatas alaparem de tarde para lanches sempre às expensas do mesmo Cristo neste caso Crista.

Porém, naquele sábado, um qualquer basta consultarem um calendário da década de 60 e ficam a saber quantos havia no ano, a Pietá de Michelangelo mesmo esculpida em pedra levantaria o pano que cobria o regaço para limpar uma gota teimosa que havia de refrescar o rosto empedernido. Pelas fotos, nos livros do pai, Reguila já visionara as pinturas da Capela Sistina e muitas outras obras clássicas e renascentistas que o impressionavam e sentia-se pequenino perante a grandeza do génio e talento daqueles artistas, não era que fosse um desprovido de engenho, mas a maior apetência comprovava-se por “deixar para amanhã que outros farão” algo inventara para contrariar o ditado popular que escutara cento de vezes a avó, mas que só para ser do contra tratou de adulterar.

Naquele dia a foto que segurava na mão, em tamanho gigante comparada com outras que sacara da secretária do pai estava a provocar-lhe comichão, um certo dejá vu, reflexo da sua fronha no espelho do quarto de banho (que esse objecto estava impedido de coabitar no quarto de dormir por sujeito a estilhaçar-se com uma bolada certeira num remate contra um keeper imaginário) e acima de tudo uma expressão idêntica à da sua tia moreninha não obstante que pelo cabelo não conseguia tirar-lhe a pinta. Como não conseguia decifrar o enigma daquele rosto de homem já calvo optou por devolvê-lo à procedência antes que caísse a estátua da Maria da Fonte ou uma bomba rebentasse no palácio do Gungunhana, e sarilhos já ia ter mal o avô e desse conta que lhe rasgara o jornal do dia.

A tarde convidava a uma ida ao cinema dos putos, um filme para maiores de 6 anos baleizão no intervalo, mas não corria nada de jeito próprio para a idade, por isso a opção passava por o pessoal se juntar no largo do Radio Clube e curtir uma futebolada no alcatrão antes que começasse a chegar o pessoal com os coches para irem à matiné das do Tropical antecedida por uma espécie de baile das sopeiras. A reunião fora agendada para as 16 horas, e se começasse a tempo dava duas horas e pico para disputarem o tremuno, se bem que 1 bastasse pois o que era demais chateava e as energias podiam faltar para subir ao muro que separa o Benfica do pátio do cinema e daí desfrutarem com cochichos os roços de coxas das parelhas ao som de Smoke Gets in Your Eyes dos Platters. Para eles o espectáculo para além de grátis dava mais pica que filmes da Marisol.

Restava uma hora para se aperaltar, calção camisola ½ manga, quedes sanjo, e um pullover para o fim de tarde que no final de Julho o tempo já se apresentava frescote. Claro que antes de sair convinha sacar 10 paus à velhota para uma Bola de Berlim e uma Seven-Up ou Mission Laranja no bar do BL e daí o money – podia estar no encontro um dos criados do pessoal e o negão não ter cumbu para lanches e isso era coisa que o incomodava – o lema de d'Artagnan era para ser extensivo também à malta da bitacaia. Só depois de confirmar tudo no seu sítio, os heróis de banda desenhada na estante, o cão a sacar uma soneca na casota ou à sombra do Coqueiro zarparia para o improvisado recinto de jogo distante de casa 5 minutos a passo de lesma em que só teria de ter cautela ao atravessar um cruzamento (quase me atreveria a dizer 600 m era percurso que teria de cobrir).

A avó encontrava-se na varanda descansando na sua cadeira de repouso, nada de balanço que o velha não gostava, preparada para mais uma leitura dumas quantas páginas do Velho Testamento encharcadas de dogmas que só ela decifrava e contestaria se estivesse para aí virada, sabendo incluso o valor acrescentado que aquelas “cantadas” traziam que fazia enorme confusão a Reguila dado que naquele livro o Cristo e os Apóstolos não usavam roupas iguais à do Mandrake, e por tal não podiam fazer truques de multiplicação dos pães, apesar de já acreditar que podiam andar sobres as águas do mar da Galileia pois Jesus sabia o caminho das rochas submersas o que evitou Pedrocas morrer afogado e tomar o caminho do reino dos mortais. Interessava-lhe contudo, naquele momento, sacar o pilim à velhota e dar de fosques por isso chegara a altura de se aviar em terra que a maré estava a subir e os amigos, se não aparecesse a tempo, substituíam-no por um primo chegado naquele fim-de-semana dos confins do inferno.

Perfilado perante a avó, que naquele tempo não era tão como se pudesse julgar, reparou que a bíblia estava aberta sobre o colo mostrando um retrato de mulher e armado em engraçadinho perguntou.

- Quem é essa senhora?

Havia matéria que nem o Diabo se atreveria a brincar com aquela mulher sem levar troco, e num sorriso matreiro sabendo que o picanço não ficaria por aí, olhou para a imagem, passou a mão por cima quase afagando-a e respondeu

- É a Virgem Maria… a mãe de Jesus Cristo!

Fechado o livro sagrado recostou-se ainda mais aguardando o disparate seguinte – conhecia o fedelho por dentro e por fora e não se enganaria com a matreirice do menino mas estava há muito preparada para dar respostas que nem Platão Aristóteles ou Judas Iscariote tinham capacidade intelectual para as processar. Ergueu ligeiramente o tronco fitando-o dos pés à cabeça que pelo tamanho do pirralho bastava 1 segundo vendo que por detrás daqueles olhos que tão bem conhecia a proveniência o que viria era uma resposta azeda ou uma pergunta do arco da velha.

- Mãe…onde está a minha mãe!

II

Há verdades que não são necessárias que as contemos e ela pelos anos experiência e pela dor de tanta perda sabia que o neto aprenderia com o tempo a distinguir o bem do mal a liberdade da ignorância à prisão da sabedoria. Os caminhos que trilhasse jamais podia modificá-los, mas seria sempre a mão enquanto o seu frágil coração o permitisse – escondera-lhe que tomava medicação algo que pressupostamente não traria ganho ao puto. A 1ª guerra contra a Alemanha, os disparates da 1ª república, os desgostos de alguns falecimentos indesejados e a destempo os 5 filhos que criara e especialmente aquele desalmado não lhe proporcionaram um coração isento de perigos.
A calma no estágio absoluto era apanágio dela mas mentiria se negasse ter sentido uma guinada no peito, um tremer de Maria ajoelhada perante a cruz onde estava pregado Cristo agonizante. Não tanto pela pergunta em si o florar duma certa dor de um luto encapotado mas pela forma e timbre da interpelação. De facto fora mais que uma inocente pergunta, dir-se-ia ter sido uma confissão de (eu sei mas conta-me uma mentira que as verdades ferem) e antes de contestar olhou para os vasos com avencas e fetos o céu para o lado nascente e respondeu exactamente o que ele queira ouvir

- A tua mãe foi morar numa casa pertinho do céu e coo tenho uma chave quendo cresceres entrego-ta

Mais curta fora a guerra das estrelas que o silêncio que se instalou antes do neto falar

- Um dia descubro onde fica a casa e quando lá chegar não preciso de chaves entro pela janela dê-me 20 escudos vou jogar futebol no largo do Tropical

Seguidamente resmungou algo ininteligível e dirigiu-se ao quarto. Esquecera-se do boné se bem que na época dispensava-se e parado junto à cama deixou-se cair de costas e fixando o tecto pareceu-lhe ver a sombra dum rosto de mulher o mesmo tempo que se permitia um sorriso indefinido a aflorar no rosto exclamado – Velha mentirosa!

Faltavam apenas 12 minutos para a hora combinada com os amigos. Deu um salto e saiu deixando a porta aberta, a que dava para a varanda onde a avó ainda se mantinha repousada não reparando que ela apresentava um sorriso trocista pois escutara a exclamação. Podia ser por vezes convenientemente distraída, condescendente até mas de surda nada tinha dizendo-lhe à laia dum até logo ficava-te bem – Se vieres tarde jantas com o cão!

Quando Reguila entrou no parque de estacionamento do Tropical já o pessoal preparava as balizas, e como não havia guarda-redes naqueles jogos as mesmas tinham apenas 1 metro de largura. Caminhava sereno, um certo ar de David enfrentando Golias e no rosto ligeiro traço de enfado evitando contudo deixar transparecer o que lhe i na alma. Não ficara agradado com a resposta da avó mas também sendo muito novo sobrava-lhe tempo para saber a verdade dado não ser menino para engolir histórias da Alice no País das Maravilhas e a Branca de Neve gostar ou não de anões porque conhecia a velocidade com que Bill The Kid sacava o revólver e a cor das divisas do General Custer. Desconfiava que lhe escondiam algo de sua mãe, que a velha só era “mãe de verdade” e não de registo de nascimento e se tal o incomodava 99% do tempo não deixava transparecer esse tipo de desconfiança açucarada com uma taça de mousse de chocolate, e já no meio dos amigos, deixando que a boca se rasgasse num sorriso disparou.

- Madiés depois do futebol vamos às bolas de Berlim?


 III


O que vos contei é quase tudo verdade e envolve um amigo do tempo das fraldas de pano em que nos alimentávamos a biberão de vidro mistura de leite em pó com água fervida numa cafeteira de alumínio, não deixando de ser um pequeno conto para alegrar a memória, história banal igual a tantas outras que como esta não ganham prémios nem são badaladas nas Tvs mas marcaram o protagonista, que despida a farda de miúdo fez-se home m de verdade.



Fim
Inicio a 28 de Junho terminado a 21 de Julho de 2015

Inácio


quinta-feira, julho 09, 2015

Para lá caminharemos


 
 
PARA LÁ CAMINHAMOS
 
 
 
 

 Sentindo que para lá caminhamos, ultimei a decisão de abordar o tema da Grécia, que me magoa e entristece, razão primeira de solidariedade e por transportar aos ombros a enorme traição europeia, à minha família a muitos dos meus amigos e à minha gente, obrigando-me por consciência a manifestar publicamente o repúdio e nojo sentido quanto a políticos contratados que ganham fortunas à custa de impostos aplicados a um povo que agoniza a caminho ada morte lenta e anunciada, antecipando-se o cenário de velhos a morrerem de doenças tratáveis ou superlotarem as filas da doença da fome, não esquecendo ainda alguns comentadores e jornalistas incapazes de disfarçarem as suas tendências politico/partidárias e o medo de perderem protagonismo e outras perdas que daí advêm, ficando-lhes porém bem pensar 2 vezes antes de falar para o povo como se este fosse mentecapto e não soubesse que após a extinção do Crime Lesa Majestade concebeu-se há alguns anos o de lesa inteligência.

De facto e perante tudo o que se tem passado «ditos e escritos» ao longo destes últimos meses sobre a Grécia do Siryza, especialmente na semana que antecedeu o Referendo e uma memória curta que o tempo ainda não permite configurar em história, vi-me confrontado com o regozijo e aplausos à manutenção da desgraça que atravessa pessoas que vivem das suas reformas, inculpados do que foi decidido pelos anteriores governantes, e em que o seu pecado capital foi o exercício do direito de voto, muitos já sem idade para se defenderem da austeridade que se advinha no caso da Europa dos 18 sair vencedora neste ataque brutal que está a fazer e fez ao um povo que apenas rejeita perder a sua soberania e a saída forçada da terra que os viu nascer, para o sonho da Europa do Norte se poder concretizar (segundo o que Adriano Moreira sabiamente referenciou na entrevista de 8/7 do corrente ano a uma TV) e escravizar os países do sul através do dinheiro, algo não conseguido através de 2 guerras hediondas contra quem hoje a leva ao colo.

Triste e magoado sim, mas de boa memória, e por conseguinte decidido a não calar a revolta sobre o que o Governo português e parte da opinião pública disseram e fizeram contra o seu parceiro europeu a começar pelo 1º ministro que devia eximir-se de se pronunciar sobre decisões dum país soberano esquecido talvez por ignorância etária que a pátria lusitana viu morrer milhares de militares nascidos na “Metrópole” numa guerra contra movimentos (entre eles um de má memória com a sigla UPA) chefiados por quem estudou nas universidades em Portugal desconhecendo-se quem pagou os estudos nas ditas colónias as viagens para o continente r quem sustentou durante o tempo que por cá andaram, mas já sabendo quem foram os países desta CEE que no passado apoiaram os tais grupos que disparavam contra pais avós maridos tios e amigos, enfim gente da mesmo país destes novos governantes e comentadores, no fundo uma classe política e afins (com as devidas ressalvas) tão incriminada no processo de fazer ajoelhar humilhantemente a Grécia como aqueles que andaram a apoiar no passado quem matava portugueses, militares ou civis, tão oprimidos pelo Estado Novo quanto os que fugiam para a Europa dos Marcos e dos Francos.

Hoje após assistir à vergonhosa manifestação de ingerência quase ultimato a um país soberano, mesmo depois da vitória do OXI, pergunto-me se há razão para manter esta União (?) tal como ela se apresentou no PE, em que representantes de países enlutados por milhões de mortes pelo Nazismo em vez de exigirem à Alemanha a mesma solidariedade com que foi agraciada perdoando-lhe uma dívida, à época, infinitamente superior ao que a Grécia hoje deve, e que pede tempo para resolver os seus problemas internos dizendo pela boca do seu 1º ministro que querem pagar, desagradando-me a imagem de alguns responsáveis que intervieram no parlamento europeu dia 8/7, onde quase pude perceber uma Cruz Suástica no meio da Íris.

 

Inácio

9/7/2015

 
Web Analytics