quarta-feira, agosto 19, 2015

Eduardo Lourenço, muito obrigado



Escutei a entrevista deste Homem soberano e não quis deixar de a sublevar ao etéreo tal como fazia o Poeta. 
Ao deixar claro a inigualável clarividência de Camões como o homem que melhor classificou o seu próprio povo não pude deixar de o manifestar aqui.

Sim! – De facto o Poeta reconhece em «Erros meus má fortuna» toda a génese Lusitana.


Pequeno enxerto de declarações deste Filósofo e professor.


·         «um Portugal que, de armas na mão, se conquistou com liberdade. E é o passado dessa liberdade – quando na sua perspectiva mereceu esse nome – que ele exuma e exalta». E assim o historiador compreendeu o elo entre os dois Portugais, procurando conciliar liberalismo com cristianismo. E fê-lo «não por oportunismo, como a cultura oficial do constitucionalismo o fará, mas porque tal era a sua visão da história e a exigência do seu individualismo ético». E Garrett completa esta perspectiva ao pôr Camões no centro da «nova mitologia pátria, pátria de feitos, sem dúvida, mas pátria de canto, de cultura, sem as quais a memória deles não existe». Mas não há «qualquer profecia com garantia providencial», o que existe, sim, é vontade e capacidade de regressar ao passado como se fosse presente, relendo os acontecimentos de glórias e viajando na nossa terra, de modo a projectar o futuro. Em vez de D. Sebastião, surge Camões, com os seus sentidos lírico e épico.

Se me é permitido, o meu contributo à cultura, pretendendo também ser uma homenagem em vida a Eduardo Lourenço. Muito obrigado.


À RAZÃO DA MINHA PENA

(Homenageando Eduardo Lourenço)



Desvalorizo notícias da minha terra

dizer de meninos à volta das fogueiras,

sabidas histórias negras de quitandeiras

estropiadas numa longínqua guerra.



Não apregoarei “até que a voz me doa”

exultações do que só parte deste povo

via passadouro a um mundo novo…

…de Luanda às avenidas novas de Lisboa.



Não!, que os erros meus e a má ventura

cabem-me por culpa, e ao amor ardente

tudo dei, e de resto o que aqui presente.



Por tudo passar, findo-me em clausura

que esta pátria que canto em poema

não dará suporte à razão da minha pena.



Cito Loio

12/8/2015

segunda-feira, agosto 17, 2015

ANDANTE SEM VALIDADE




ANDANTE

INVÁLIDO


 
Sentado junto à janela imediatamente a seguir à porta da primeira carruagem do Metro Plácido Morandi olhava distraidamente as pessoas que validavam o andante e calmamente se dirigiam para o veículo estacionado na gare de Campanhã, dispondo ainda de 2 minutos para a partida em direcção ao aeroporto. Dentro, já encontravam os fiscais e os respectivos seguranças que normalmente os acompanham todos em amena cavaqueira observando em simultâneo as pessoas que entravam.
Junto a si um homem com aspecto de filosofo lia uns apontamentos que pareciam interessantes que não fosse pelos sorrisos que arrancavam ao indivíduo, e um pouco mais distante sentados de costas um par de namorados alternando beijos com msn ou tentando bater o recorde dum qualquer jogo propositadamente construído para aquele tipo de aparelhos. Mais descaída sobre a esquerda uma idosa entretinha-se a ler a Caras e devia ser surda a ver pelo aparelho auditivo.
Os fiscais, ao mesmo tempo que conversavam iam preparando as fichas de autuações para o caso de algum engraçadinho querer dar uma de borlista aos mesmo tempo que o segurança fingia ajustar a pistola que não trazia dado que o governo ainda não permitia disparates desse tipo, pois armados, andavam os policias e afins, que no entender de Catarino Sirocos, o filosofo, nem sequer deviam andar empresas privadas a fiscalizar fosse o que fosse em espaços públicos e muito menos dentro de meios de transportes que eram pertença do erário, e se não lhe competia tomar as decisões no lugar de quem governava nada o impedia de manifestar opinião e não se fez rogado exprimindo em voz alta o seu descontentamento por ter de entregar o passe um qualquer gorila só porque tinha uma farda de cor manhosa.
O pai de Plácido era italiano e emigrara para Portugal aquando da II Grande Guerra, e o filho não só estudara em terras do lusitano como juntara os trapinhos com uma rapariga natural de Trás-os-Montes; coincidente fora estudar para Lisboa onde conhecera Placido de quem se apaixonara e, após terminado curso aceitou o pedido de amancebamento deste; no fundo não era estrangeiro mas sim filho de estrangeiros, dominava a língua na perfeição aliás como qualquer lisboeta algo que servia por vezes para baralhar os recém conhecidos que não conheçam a história da sua vida.
Súbito escutou-se o apito indicador de início de viagem e, Plácido sorri ao ver uma mulher a rondar os 35 anos entrar disparada na estação, e tal a pressa para apanhar aquele carro que, não obstante trazer o andante na mão não o validou correndo para a porta que se fechava sendo ajudada por um jovem que teria pouco mais de 19 anos e disfarçadamente colocara a biqueira da sapatinha de forma que a porta voltasse a abrir recebendo por parte da mulher um obrigado rasgado de orelha a orelha e a explicação – Credo tava a ver que perdia este tou aflita tenho uma entrevista d’emprego e não quero chegar atrasada
Mal o metro se pôs em marcha um dos fiscais dirigiu-se de imediato à mulher pedindo-lhe a senha enquanto os outros dois iniciavam pelo primeiro banco as verificações levando Plácido abanou a cabeça em reprovação dado que vira a mulher ultrapassar os postes onde estão os ‘validadores’ sem de facto validar o andante e pensou – esta está tramada vai ser multada pela certa e no mínimo 100 € vão-lhe tentar sacar
- Por favor o seu título de viagem
Entregue a luzinha vermelha seria a única que daria sinal de vida, e vendo que a mulher estava a ser conduzida para junto do banco onde se sentara espetou as orelhas para tentar escutar o diálogo o que não seria difícil até porque havia pouca gente e o fiscal nem ao trabalho se dera de falar reservadamente.
- Os seus documentos por favor CC ou CC passaporte ou
A mulher tirou da carteira um dos documentos que lhe pedira e o fiscal nem sequer se deu ao trabalho de escrever o nome sem o pronunciar – Viviana Passante de 29 anos solteira –. Ao mesmo tempo que se sujeitava ao vexame pedia ao fiscal que permitisse validar o andante na estação seguinte pois não fizera de propósito mas porque com a atrapalhação nem lhe passara pela cabeça que devia cumprir esse trâmite e o pior de tudo é que não podia chegar atrasada à entrevista. Vendo que não teria sucesso e seria penalizada, somado ao temor de ser colocada fora do metro telefonou ao pai pedindo que ligasse a uma amiga para que ela informasse a recepção da empresa que ia entrevistar da ocorrência.
- Pai liga à Madalena Simplia e dá-lhe o meu número pede que me ligue
- Porque não ligas directamente e já agora porque telefonas a pagar no destinatário estás sem saldo outra vez
- Tou bolas passo a vida a telefonar para as lojas e escritórios por isso o saldo vai-se num instante vá faz lá esse favor o número dela é o 900565009 é só talvez quem sabe pra semana ligue de novo
Plácido era dono de uma empresa de atacadores de sapatos e exportava para quase todo o mundo e ficou de orelhas arrebitadas ao perceber que a mulher era licenciada em tradução internacional dando-se disfarçadamente ao trabalho de gravar no verso do tiket que comprara na estação o telefone e o nome da amiga. Fervia-lhe a figadeira perante a insensibilidade do fiscal, piorada o juízo que estava a fazer do homem pelo razão que o segurança estava plantado atrás dele como se a mulher fosse uma vulgar criminosa capaz de sacar uma metralhadora e assassinar o pessoal que estava dentro da carruagem; ficou ainda atónito com o que estava a suceder pois o normal seria, naquele caso, saírem na estação do Heroísmo, e aí fazerem o preenchimento do auto fora dos olhares do resto dos passageiros, e percebeu que o fiscal escrevera que a prevaricadora entrara precisamente nessa estação o que, perante provas, o auto deixaria de ter efeito por inconformidades no preenchimento. Depois de tudo formalizado a mulher envergonhada tratou de sair na estação seguinte (….) deixando o fiscal e o segurança com cara de patetas alegres detentores duma façanha inigualável.
A tudo assistira calado Catarino Sirocos que mal a mulher saiu não aguentou julgando-a vítima de abuso de autoridade tanto mais que ela queria validar e explicara o que todos viram inclusive os fiscais e já de pé não as poupou
- Os senhores não acham que podiam ter-lhe facilitado a vida à tanto mais estando desempregada ter pedido que fossem condescendentes a mulher até ia a uma entrevista para emprego
O fiscal olhou-o, e pressupostamente entendeu ser dono da verdade, que aquele intruso metera-se onde não era chamado e respondeu com ar sobranceiro
- Ela que fosse a pé
Ouviu-se o som de uma esferográfica cair no chão; o rapazola que ajudara a mulher a entrar Viviana Pasante e que estava entretido a fazer um teste de matemática não se contivera com a resposta do fiscal e levantara-se abruptamente aproximando-se do pseudo filósofo e do fiscal e do segurança. Quando metera o pé à porta estava sentado e não deixara adivinhar o seu 1,90 e possivelmente uns bons 85 quilos musculados fazendo o segurança parecer um daqueles candidatos à tropa que eram rejeitados por não haver fardas com o seu número e interpelou o fiscal com um olho do segurança não fosse ter de lhe dar um pontapé nas partes e arrumá-lo de vez.
- A gaja ir a pé tas quê meu chegava toda suada julgas q’álguém atende uma pessoa transpirada tas pirado
- ‘Eu’ não tenho culpa dela estar desempregada apenas cumpro a minha missão
O rapazola coçou a cabeça e Catarino apercebeu-se que a coisa podia correr para o torto e antes que alguém se magoasse de verdade tentou por água na fervura
- Sabemos que cumpre a sua missão aliás o passado por certo o senhor estava numa dessas filas do fundo de desemprego
 - Por acaso mas agora estou a trabalhar
- Também ela mas ficou desempregada e o para muitos terem emprego há quem os não tenha bom dia que saio nesta estação e já agora para seu informe sou funcionário da Segurança Social.
Quando o metro chegou à estação do Marquês Plácido saiu ao mesmo tempo que o matulão e aproveitou para lhe dar os parabéns pela forma decidida com que ajudara a tal Liliana e os enfrentara.
- Sabe eu uma vez também fui multado mas bolas andava na estroinice com o pessoal da faculdade e o papá lá teve de se chegar à frente desde esse dia e já lá vão 3 anos nunca mais me apanharam sem o passe em dia mas a mulher está desempregada
- Não se preocupe ela só paga aquela multa se quiser
- Não percebo
Depois de explicar as inconformidades do auto despediram-se com um aperto de mão sem no entanto dizerem o nome um ao outro.
Depois de sair da agência bancária onde tivera uma reunião com o gerente de conta Placido Morandi dirigiu-se para o escritório que possuía numa das travessas que dava para a Praça dos Aliados; tinham de atender um cliente antes do meio-dia e combinara com o advogado e o seu treinador de ténis almoçarem nesse dia se possível o mais tardar por volta das 13:30. O cliente Akito Murito, era responsável por uma empresa chinesa que pretendia negociar a importação de atacadores portugueses para posteriormente os vender como produto manufacturado Made in China e a meio da reunião deu a conhecer já ter aberto um escritório num dos prédios que confinava com a Rotunda da Boavista e que estava difícil compor o quadro de pessoal pois a maior parte dos entrevistados só um idioma e ele necessitava alguém que dominasse escrito e falado pelo menos 5 e se uma delas fosse mandarim era ouro sobre azul dando por terminada a reunião, ficando pendente apenas a assinatura do contrato entre a Cordonis & Atacadoris Internationali Ldª e o grupo AttakiKordos CHI INT.
Às 13: 19 Plácido entra no restaurante onde já o esperavam os amigos e feitos os pedidos ao empregado de mesa conta o que sucedera no Metro dizendo que valera a pena andar de Metro e que os amigos deviam utilizar mais esse transporte que para além de ser mais barato que andar às voltas com o carro à procura duma rua que não tivesse parquímetros e evitavam acidentes que ainda era mais grave, não se inibindo confidenciar a parte da conversa que tivera com o chinês, e Jerónimo Silvester detentor dum escritório de advocacia no prédio contíguo ao seu pergunta o que estava a pensar
- Vou ver se arranjo alguém para o Akito estava apensar na mulher do metro mas se tens alguém em mente diz
- Com essas referências não me lembro de ninguém e tu coach
- Por acaso até conheço uma pessoa mas tanto quanto sei está a trabalhar no Parlamento Europeu e cheira-me que não volta para Portugal nem com cargo de Ministra da Língua
O empregado trás as sopas e pelo fume que deitavam do prato estavam a ferver que para Plácido era intragável; frias ainda comia mas a fumegar nem pensar e aproveita para pegar no telemóvel.
- Está boa tarde parla Plácido Morandi é sengorina Madalena Simplia sou funcionário da empresa Cordonis & Atacadoris Internationali Ldª e desejava o contacto de Viviana Pasante para uma possível oferta de emprego.
Depois de se inteirar das capacitações académicas telefona a Akito
- Estou a ligar para o informar que possivelmente tenho a pessoa indicada para o lugar fala e escreve fluentemente 5 línguas Inglês Francês Alemão e Sueco serve
Jerónimo interronpe e diz que só anunciou 4 idiomas; Plácido faz-lhe sinal como polegar
- Só disse quatro perdoe-me ela também fala Mandarim vou enviar-lhe por msn nome e contacto telefónico.
Deligou o telemóvel olhou sorridente para os companheiros de almoço e metendo a colher de sopa à boca exclamou – Bolas esta aguadilha continua a ferver.


Inácio
16/8/2015

sexta-feira, agosto 14, 2015

Médico...jamais




MÉDICO JAMAIS!


Entrou no escritório contíguo ao quarto do pai sem bater, o olhar semicerrado deixava antever borrasca. Ter-se-ia passado algo de mal ou estaria para acontecer reconhecido que o ambiente entre progenitor e descendente nos últimos agravara-se ao ponto duma vizinha ter comentado que pareciam os exércitos de Bonaparte e as hostes lusitanas na campanha francesa por conquistara a península Ibérica e que Junot Soult e Massenet ao pé do rapaz mais não passavam de Bispos concorrendo ao cargo de cardeais. Sobejamente o pai sabia que pelo filho jamais haveria um padre na família nunca usaria tiara de Papa mas esperava no mínimo um pouco de bom senso na cachola e num rasgo de humildade e colocando o orgulho em águas de bacalhau durante um semestre o levasse a reflectir sobre a hipótese de se candidatar ao curso de medicina. As de semelhante desejo e o suporte das razões sempre as mantivera sigilosas e avisara a família para certos assuntos ficarem tal como eles os queria manter ou seja no segredo dos deuses.
Manulino consciencializara há muito que aquela área profissional garantia um futuro promissor; dentista por exemplo, garantido, ou não tivéssemos todos dentes para tratar e médico legista então nem se falava; quem não morria, se até o velho das botas batera a bota e com o estalar de conflitos internacionais e os que por casa já duravam há muito, curandeiros coveiros vendedores de flores e velas e carpideiras afirmar-se-iam como esteio da classe pagadora de impostos ultrapassando em status os que tinham enveredado por vender o que não tinham, construir gráficos com evoluções financeiras assentes na especulação do dinheiro virtual e desvalorizando a dignidade aumentando os seus lucros pessoais ou de grupos à margem da lei a custo do princípio dos vasos comunicantes inclinados sempre para o mesmo lado. O futuro só ao destino pertencia e ele como pai queria era um filho mais agarrado aos livros de estudo e o compromisso de tudo fazer para entrar na faculdade de medicina seguindo o exemplo das primas Marlinina e Laurentana que o próprio sub-repticiamente ajudara com a atribuição duma bolsa particular para que pudessem estudar e concretizar os sonhos sem nunca cobrar e na certeza que jamais saberiam que as ajudara pela sua boca pois o done is done e a decisão de abrir os cordões à bolsa só a ele dizia respeito dando-se por satisfeito só por poder registar o êxito das garotas.
Os ecos duma guerra com fim anunciado por capitulação duma das partes ou golpada feita por imbecis no uso legítimo de armas fornecidas por quem lhe pagava o vencimento e se veria traído não chegavam para acalmar um homem sabedor das dificuldades de gerir uma grande empresa, governar uma casa, atender às necessidades duma família espalhada por 3 continentes; pretendia mais, pretendia que o filho deixasse de ser um diabo à solta com a mania das revoluções e não viesse no futuro a oferecer-lhe mais uma faixa preta no braço se bem não a ter usara pelo falecimento da mulher conflitos que se acostumara a liderar sem prejuízo para os demais.

Naquele dia Manulino ostentava um ar mais sereno; a pescaria correra às mil maravilhas, o barco a funcionar na perfeição as canas 5 estrelas e o Plymouth do irmão, companheiro inseparável naquela actividade de pesca amadora e lúdica a dar garantia que não os deixaria a 30 km a sul de casa, os cigarros ainda sem serem fabricados com liamba, o café extraído duma arvore natural apanhado por safra, a casca da banana continuava a não ser comida, e os baiacus que teriam emigrado à falta de fios de pesca para cortarem ajudava à boa disposição somado ao facto de ter vindo a saber por portas e travessas que as notas do filho subiriam, mesmo que ligeiramente naquele trimestre, mas ainda assim insuficientes para o descansarem, manchado dia pelo facto do gloriosos Benfica continuar a lixar o seu Belenenses, clube das elites no campeonato nacional, os bancos não lhe lixaram os depósitos com taxas absurdas e imprevistas ou negociatas de alto risco, os aviões não caíram por falta de assistência técnica ou peças, os barcos não se afundavam nem haveria mais Santas Marias para assaltar, a fome começara a fazer parte duma memória histórica que não devia comportar ramalhetes de flores negras e o mar manter as mesmas marés com a lua a expor o seu esplendor em noites de céu aberto. Todavia e para ensombrar vindo de muito distante começavam a chegar ventos com notícias confusas sobre o Vietname e a possível capitulação dos gringos, alertando para uma derrota da USA abrir uma janela de oportunidade para o avanço da ideologia avermelhada e os grupos ligados à URSS poderem aspirar a golpes revolucionários em várias partes do mundo e Portugal não seria excepção, até no seu leigo entendimento politico. Na semana anterior após uma das tradicionais idas ao cinema com o grupo das 4ª abordavam o tema com alguma preocupação não lhes agradando que as foices e os martelos andassem nas mãos da ganapada com mania de serem descendentes de Lenine, afilhados de Mao Tsé Tsung ou julgarem Marcelo Caetano primo em segundo grau de Drácula e que chupavam o sangue das crianças à ceia.

- Se os Gringos perdem no Vietname os Sovietes vão cantar vitória amigo Nunôt
- Nem duvide os tipos não tarda promovem revoluções por tudo quanto é sítio e por cá com o apoio de alguns militares sabedores que a guerra ultramarina está ganha e impossível continuara a definir os espaços onde o outro lado pode actuar tudo farão para não haver independências surgidas de dentro concorda amigo Alipinto
- Claro e já imagino o surgimento dum governo vermelho e como os russos nunca entregaram nada a ninguém basta atender à situação dos estados que compõem o território para lá da Muro de Berlim ficam a mandar em tudo já imaginaram o que significa em termos de Zonas exclusivas quer marítimas quer aéreas
- Tem razão e como a Itália já experimentou vestir casacos encarnados imaginem da cor que se pintará o mediterrânico Nunôt
- Se contarmos com Cuba um Brasil explosivo atolado de feridas sociais e uma América latina em polvorosa os americanos perdem a hegemonia à escala mundial e a Abertura 1812 de Pyotr Ilyich Tchaikosvky vira Hino Planetário

Manulino desanuviava em momentos como aquele; os amigos eram amigos e ele amigo dos seus amigos. Sem excepção sabia não haver bela sem senão e a vida, que lhe oferecera muitos privilégios, cobraria através das desavenças com o endiabrado do Ché – Gaita a quem sai o moço – Sabia das boinas revolucionárias mas desconhecia os punho erguido nas noites da queima dos charros, os lenços da cor do sangue. Sabia, talvez porque o filho saía ao pai em muitos aspectos, sobretudo na teimosia e ser do tipo antes quebrar que torcer; a prova do ditado ter fundamento não se faria esperar. Sentado à secretária terminava a actualização do ficheiro de pesca anotando mais um registo com sigla de recorde já que o total dos quilos da última pescaria ultrapassara os 120 kg, e fechado o dossier rodou a cadeira ficando de frente para o filho. Reconheceu de imediato a existência de 2 lança-chamas, tal a crispação no rosto e o brilho no olhar. O silêncio irrompeu pela sala aproximadamente 45 segundos; como adulto experiente, há muito interiorizara não ser o mais correcto tratar um filho de 18 anos com 3 pedras na mão ou atitudes ditatoriais, muito menos com rebuçados de mentol, quase adivinhando ao que viera e por conseguinte nada mais aconselhável que dar-lhe a iniciativa para abertura das hostilidades.

- Não vou para medicina.

Manulino nada respondeu. Gestualmente deu-lhe indicação já ter idade para saber com que linhas se queria coser e levando a mão ao sobrolho tipo continência à moda da Mocidade Portuguesa deu a entender ser para si assunto encerrado voltando a posicionar-se virado para a secretária; abriu um segundo dossier e rabiscou umas quantas frases que o filho nunca leria, pelo menos enquanto vivesse e fosse detentor das suas faculdades, nem se dando ao trabalho de espreitar por cima do ombro a verificar se já tinha desopilado. Dois anos mais tarde, como querendo confirmar o que o escrevera na tarde em que inequivocamente o desenganara quanto à vocação académica, virão filho vestir uma farda militar colocando na cabeça uma boina que não tinha as cores das próprias convicções. Tal como previra e terminara o escrito, o orgulho seria a arma mais poderosa ao longo da vida dele mesmo que tal qualidade o fizesse perder a guerra como os americanos a perderam no Vietename. Seis meses depois, iniciava o ano 1975, Manulino sentava-se à varanda principal da sua vivenda com vistas para uma das avenidas mais conhecidas da cidade onde vivia e, em vez de ter posto a girar na sua mais recente aparelhagem a Abertura 1812, permitiu que se ouvisse no passeios do lado contrário o tenor Luciano Pavarotti no papel de Radamés cantando uma área da ópera de Giuseppi Verdi, memorizando os gestos que um transeunte fizera ao escutar «Se quel guerrieri io fossi…Celesta Aida»



Inácio

13-14 Agosto 2015

quinta-feira, agosto 13, 2015

O Pedregulho





O
PEDREGULHO




Bamboleando, deixava ver-se um reflexo semelhante ao de uma asa de corvo quando incidiam raios do sol ao nascer do dia num esvoaçar imaginário excitada pela aragem que se fazia sentir na orla marítima e que mais tarde aumentaria como um por de sol tropical. O espectáculo que a pequena ondulação construía para além de pano de fundo enfatizava o andar que podia considerar-se um bailado de execução irrepreensível de uma primeira bailarina do Bolshoi. Coisa alguma parecia perturbá-la; os meninos a levantar e atirar areia para os banhistas alapados nas toalhas a bronzearem os corpos quando chutavam as bolas imaginando-se CR7’s, os pares de namorados a beijarem-se enquanto untavam a pele com protectores factor 30 elas aspirando a modelos eles a galãs de telenovela, os pais aborrecidos com as mães por terem de aturar as sogras que intrusamente se metiam nas férias, os avós arrepiados com os mergulhos dos ‘ai jesus’ das suas vidas, os empresários falidos deitando contas aos prejuízos, os salvadores nadadores por irem iniciar mais uma pasmaceira pois há 10 anos que ninguém se afogava naquelas praias, nem sequer os donos de animais que sem os donos darem conta faziam necessidades na mesma areia onde as pessoas se rebolavam mas que aqueles civicamente tratavam de apanhar os dejectos.

Ninguém poderia saber ou imaginar o que ia naquela cabeça, que sentimento nutria pelos que lhe eram próximo, em que partido pudesse votaria, qual o clube do seu coração, gostava ou não de corridas de touros e do show hilariante dos toureiros a espetarem farpas no dorsos dos animais; talvez nem soubesse porque existiam estrelas no céu ou porque o sol queimava outras vezes não; incluso, podia estalar a 15ª guerra total, colidirem os continentes no maior desastre geológico cresceram glaciares ao longo da zona tórrida correrem rios da foz para levante, desde que não elegessem para os governos nacionais um animal de 4 patas a vida continuaria perfeita e o mundo em equilíbrio.

Passados brevíssimos minutos parou junto a um “pequeno pedregulho que se banhava cada vez que uma onda rebelde enrolava a areia e ansiava refrescar os buracos dos caranguejos” olhando fixamente para lá donde a vista humana alcança – Teria dotes de visão extra-sensorial que permitiam ver o bailado das toninhas nas águas profundamente azuladas do oceano – interrogava-se um pseudo turista à procura do que não tinha na sua terra e continuava – A mente às vezes vai para além e quiçá seja este o caso dum cérebro extra dimensional e capacita os sentidos irem para além do racionalismo do subterfúgio comum ou a justificação positivista sobre mundos paralelos onde cada ser encontra correspondência numa outra galáxia ainda desconhecida para os cientistas dos mais evoluídos laboratórios mundiais onde se pesquisa a vida para além da existência terrestre – desabafava cofiando a barba rala avistando para lá do paredão da esplanada colocada no areal com pequenos candeeiros que se acenderiam mal a noite chegasse e pertencente a um dos vários hotéis que se estendiam pela avenida principal a velha Yafo, e no molhe de rochas, 3 pescadores amadores de cana empunhada lançando de volta o peixe para a água sempre que este não atingia o tamanho legal.

Kasteliev Adraan conhecia aquelas areias, as águas, os donos das embarcações de luxo ancorados na marina fronteiriça aos hotéis, as pessoas que usualmente passeavam os animais de estimação que a passo de trote gozavam a liberdade de poderem ostentar as trelas fora dos jardins particulares circundados por muros erguidos pelos homens afim de garantirem a sua liberdade, servindo esse cuidado também para preservarem os que se enjaulavam e depois de amestrados, faziam as delícias do público em circos de ocasião onde os anões eram palhaços e os mestres de cerimónia maquilhavam-se à falta de cash para operações estéticas, como alguns apresentadoras de televisão, escondendo os saltimbancos para lá dos 50 as rugas compradas nas tendas de pagamento do seu baixo salário sem descontos para a segurança social, em retribuição dos espectáculos levados à cena em praças de terra batida, alguns mesmo obrigando os contorcionistas passarem pelo coador da vida e o que de magro esta lhes oferecia.

Kasteliev desandou do bar onde estivera até momentos antes a degustar o seu breakfast como se fosse Sabat dirigindo-se pausadamente para o pedregulho que antecedia o paredão contando o número de veleiros ancorados na primeira marina. 12 era o número; espreitou o telemóvel e coincidente a data registava 12 de Agosto 2015 e a pouco menos de 3 metros do pedregulho que desafiava a ondulação com intrepidez estremeceu – fizera um ano, precisamente naquele mesmo dia, que recebera uma chamada telefónica do seu grande amigo Rochoff Kardosio Luyssin alertando-o sobre a ocorrência da morte de Nuksädiha e ficara para morrer.

Não esperava com uma notícia da natureza daquela e que a cadela tivesse morrido sem que Arievilova Marianiska nada lhe dissesse, reflectindo as razões do silêncio e concluíra na altura que escondera a situação para evitar que ele lhe consumisse a paciência e a forçasse a mandar abatê-la. Nesse dia ligou para Arievilova a criticá-la por não lhe ter dado conhecimento do que se estava a passar recordando que fora incapaz de disfarçar o estado de choro com que articulava as palavras; – Os homens não choram…deve ter sido impressão tua – comentava-lhe um amigo na altura, mas na realidade sentira-se enlutado pela cadela mais do que pela traição por parte da dona, algo que já para si não constava da lista das dúvidas.

Ao recordar o episódio percebera que tremia e um incómodo suor escorria pela face e fechou os olhos já com os pés dentro das águas cálidas do Mediterrâneo refilando por não se ter descalçado; trazia calçado socas de borracha usadas quando ia para a praia surgindo um forte anelo de se atirar vestido para o mar, refrescar o pensamento, lavar as mágoa, condenando-se ao mesmo tempo por ainda não ter em definitivo exaurido o que sentia por Arievilova mais do que ter preterido o convite da sua prima Bibianina Oliveisaka que por força do destino se separara, para que fosse morar consigo e Francsoov Candevsky único filho, o que seria benéfico para ela não tanto pelo dinheiro de renda que não precisava mas pela companhia e um certo apoio num momento que seria complicado com o filho a entrar no campo das desbundas universitárias tanto mais que já lá morara durante um ano o que seria no fundo um regresso ao seio familiar, optando porém alugar uma pequena casa na esperança de uma futura reunião.

Na linha do horizonte dum mar onde dentro de algumas horas o sol se despediria da terra do médio oriente a caminho das antípodas, embarcações de média tonelagem navegavam legalmente em águas internacionais levando fugitivos provindos de países em que estalara uma novo e horripilante cruzada contra o ímpio cristão. Kasteliev até podia perceber as razões mas condenava a barbárie muito mais a decapitação de pessoas frente a câmaras de TV para posterior transmissão ao público infiel, e pensava como reagiria essa gente se os ocidentais mandassem ás malvas os conceitos humanísticos e tomassem iguais medidas ou piores. Como pacifista sempre vira a violência inimiga condenável desde o tempo da ascensão dos antigos impérios, mas tratou de varrer esses pensamentos já bastando ter vindo à memória o acontecimento do ano anterior.

Perdido noutros, recordava-se dos torneios de malha em que participara décadas atrás, e criticou-se por não ter escolhido por desporto preferido o JDGF «Jogos De Gráficos Financeiros» sempre melhor em termos de reforma que seria provavelmente equivalente ao que auferiam os políticos profissionais que decidiam nos gabinetes intervenções nos Golans. Era contra a guerra, mas também admitia que os palestinos não ajudavam à missa para que a paz fosse pacífica; entre os seus amigos comentava-se, falecido Arafat, o conflito Israelo-Árabe desabava e Israelitas e Palestinos ergueriam finalmente uma pátria comum e que Cristo no Santo Sepulcro agradeceria pois desde que os tiros tinham começado nunca mais pudera descansar na paz do Senhor. Infelizmente, 13 anos após a última copofonia com os atletas do «Malha Clube» a situação por aquelas paragens mantinha-se inalterável, ou a tendendo a piorar.

Subitamente, como se esvaziasse a praia, Kasteliev deu conta dum silêncio absoluto a apoderar-se do espaço em seu redor; as três pessoas que pescavam no paredão tinham-se milagrosamente evaporado, o Mediterrâneo transformado num mar-chão quase espelho do etéreo, as embarcações ao largo da costa hasteando bandeiras brancas ao mesmo tempo que um silvo, um assobio calculado atravessava a atmosfera sublinhando o silêncio. Fora um som similar ao que tantas vezes lançara em desafio a Nuksädiha e que o obrigou a virar-se repentinamente procurando a origem do som. Junto ao pedregulho sobranceiro ao mar uma cadela que abanava a cauda, também asa de corvo, por puro contentamento. Perante um segundo chamamento sibilar desatou numa correria só parando junto a um casal de pé limpando a areia da praia com as toalhas de banho.

Tal como Jesus caminhando pelas pedras sobre o mar não vira o quadro que o pintor pusera em tela depois da Última Ceia, igualmente Kasteliev não descortinara qualquer cão parado perto do ‘pequeno pedregulho que se banhava cada vez que uma onda rebelde enrolava a areia e ansiava refrescar os buracos dos caranguejos’. Milagres não contavam para a sua religião e a fé contendo-os há muito deixara de constituir doutrina, valorizando até crenças e ditados na medida do valor que se lhes devia ser atribuído, mas sentiu o rosto ligeiramente molhado limpando de imediato com a palma da mão uma pequena e teimosa lágrima que se atrevera a desafiar um dos mais populares ditados que o homem inventara, e ele, sabia-se um homem de verdade.


Inácio
12/08/2015


 
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