domingo, outubro 23, 2016

LENTES FUMADAS

DETRÁS DAS LENTES FUMADAS 
(poema transformado em conto)


Por detrás das lentes fumadas e grossas percebeu-lhe um olhar carregado de angústia, franzido e arcado sobrolho e na boca traços de amargura recente. 
Rodada paulatinamente a cabeça solta encabeladura espraiada ao vento espreitavam fios brancos e naturais, código de idade e inquestionável marca sofrida de uma pérfida existência. Cruzado os olhares sem recriminações resguardou-se decente e cautelosa dado o tempo tê-la ensinado que os verões, mesmo alegres, não raras vezes deixam nos anos irremovível mossa. Liberta a mente sorveu um trago de café e num ingénuo passar de língua aos lábios observou-lhe, pelo canto do olho, um sorriso de gozo. Saindo da esplanada com soberba altivez penetrou-o com um último aceno e incapaz de suster, percorrido por uma erótica horripilação, instalou-se o desejo de a possuir talvez sentindo que nunca mais a voltaria a ver.
Chegado por aquecer fresco Setembro afagavam-lhe o rosto brisas com destino trazendo recados doutras longitudes ventos duma desgraça anunciada entregue em mensagens carregadas de avivado luto sem remetente mas com destinatário colectivo. Evitados reparos ou dedos em riste aplacou, apreciando passageiras nuvens, dores de sulcos traçados no velho alcatrão que sugeriam rodados de Jeeps nas picadas e quase confundido com o passado perdia de vista a mulher pela distância, ao compasso de uma sinfonia moderna; suspirando deixou tombar a cabeça imaginando-se de novo soerguido. Deleitava-se a caneta pelo papel deliciando-se com meiga e suavizada aparência, quando sentiu, diria num toque de libélula, um sopro sensual e meigo contendo inesperado convite. Esbelta, sorriso carregado de mel com um não sei quê de gindungo, toma-o pela mão e sem comentários desnecessários conduze-lo pelas alamedas do sonho. Pelas arestas da janela do quarto do hotel corria uma sonata sem notas ou pauta alando ao puro ulo do querer concretizado. Volvidas horas, sem nomes ou apelidos, entre beijos a roçar os lábios, entrelaçados os dedos apreciou fotogénica beleza num corpo que se fazia adulto na exacta medida que os orgasmos mostravam ingresso na arena da fantasia, e cerrados os olhos, comprimida as pálpebras deixou-se acorrentar pela malícia duma virgem de signo.

No relógio do salão que antecedia o bar os ponteiros dançavam sem acordes a valsa da meia-noite; não distante esperava-me a solidão. Altivamente, solto ao alto cordas da garganta, num canto em voz rouca e arrastada, não raras vezes sentindo chegada a velhice com feridas saradas num corpo quase exangue e já cansado da vida, servido pela má sorte e de amigos falsos com um sorrir enganador escrevi estas linhas pensando que me fazia escritor para toda a eternidade.


Adolfo Castelbranco Oliveira
(Cito Loio)
24-25/09/2016

quarta-feira, outubro 05, 2016

O QUE VOS DOU




GANHO DE PRÉMIO O QUE VOS DOU

.
Joguei parte da minha vida, displicente,
no caudal de um rio com ágas turvas
pagando pela viagem bilhete sem recibo
sabedor da minha origem qual destino,
e correndo resvalei por muitas curvas.
-Prémio ganho?_ o que a idade consente.
- Montando porém 'baloiços da puberdade
saboreei sem memória perdido o sentido
beijos com paladar a mel e gindungo;
_ sem desperdiçar sequer um segundo
galanteava um'outra de amores perdido
ignorando 'termo de voto de castidade.

.
Permito-m'ora vaguear num novo mundo
ao ver imparável 'fim que já s'aproxima;
_ por tal ergo uma taça de espumante,
rodopio danças elogiado garboso amante
como outrora fizera, aquecido o clima
vestida a farpela dum mero vagabundo.
-  E revivendo-me capitão n'adolescência
navegando mares mais encarpados
odorizados por combinações rodadas
sem seguro de vida em ondas encorpadas
contando abraços c' beijos inegociados
escrevi histórias d'inigualável decência.

.
Cito Loio

Poemas sem data nem valor

domingo, outubro 02, 2016

Avenidas do aeroporto


Fecharei o mês de Outubro antes de entrar Novembro. Sobre uma história de parto sem dor, dava uma mulher à luz um rapaz de cor mista transportando dentro de si a génese do Poeta crescendo envolto por brumas gigantescas que espelhavam imagens dum futuro de luta sangue e fome, correndo atrás duma liberdade, que vinda não lhe daria a independência total antes  levá-lo-ia por vielas com trilhos perigosos onde a traição se escondia do nascer do dia ao morrer da aurora.

Enfrentando pesadelos descarregou palavras contra inimigos evitando feri-los no corpo mas apenas tentando enegrecer-lhes a alma; viu porém que remorsos eram sentimentos que se tinham perdido no útero materno, e só a morte o libertar de campanhas que sozinho jamais sairia vitorioso.

Aberto o livro da epopeia sonhou um dia abraçar o Poeta, jurando que escreveria uma nova epopeia, não em versos, mas vertendo em choro lágrimas tantas que desaguadas nos oceanos impediriam que a maldade humana secasse rios ou deixasse os mares sem sal.

Incrédulo pelas ruas de uma cidade que se esvaía calcorreando artérias sob tiros de metralha consentida, pasmava-se vendo no mesmo país quatro exércitos e sabendo-se armado com o único canhão que sobrara disparou palavras com pólvora nos versos desconhecendo se no dia seguinte desceria pelas avenidas do aeroporto.

***

DAS  AVENIDAS DO AEROPORTO

*

Retive de memória breves olhares,
apagado aceno à despedida
abanos de cauda distantes ladrares
que me esperava nova vida,
e sem bater de portas, aberto ‘portão
dei costas à casa e ao conforto.
- Por ruas da cidade inumava ‘ilusão
subindo 'avenida do aeroporto.

*

Rolava monta-cargas, paletes na placa;
_ nos aviões asas da desgraça
desfeito ‘sonho, mágoa que não aplaca 
a ira de ver vendida de graça
a terra que amara sem preconceito,
quipucos feitos com ardor
saboreados entre bateduras no peito
e penetrações c’ siglas d’amor.

*

Fechado, passava meia-noite, último voo.
- Atrás, c’ lágrimas de sangue
tombava dum coqueiro um último coco,
rolando pelo alcatrão exangue,
enquanto o ensordecer de quatro turbinas 
marcava ritmada paciência
deixando para trás em tão duras sinas,
parte duma breve existência.


Cito Loio

sexta-feira, setembro 30, 2016

Cálice de respeito

Disse e cumpro.
Aos poetas andaluzes ergo este cálice de respeito.


HONRA SEM CREDENCIAIS


Não sou daqui, lugarejo algum ou paralelo
sequer neles encontrei berço d’infância
terra que me desse mais que mero sustento,
apenas brilhos cintilantes no céu estrelado
d’iguais astros guardiães de meus segredos.
- Sim, tudo sei, e também sei que jamais serei
substituto duma estátua de ferro a arder
chão arável frente a u’ cemitério alentejano
canto ‘Galiza, Kalinka ou fado emigrante.

Sem repetição afirmo: - Nunca me quiseram
condenado por ferezas que desconheço
constituído arguido de um delito por provar,
prisioneiro sem cela guardas ou grades,
por oriundo, concluo, dum país por inventar 
onde à honradez se dispensa abonação.


Cito Loio
(poemas sem data nem valor)
9 a 12 de Agosto 2016


quinta-feira, setembro 15, 2016

Um dia...

Um dia deste ilustro este canto

terça-feira, setembro 13, 2016

ANJO DA GUARDA



ANJO DA GUARDA


Nasceu sombrio e tristonho o Domingo, carregando o horizonte de fria neblina como se tratasse de uma montra de Verão que às vezes se faz Inverno, quase pré Outono das folhas que caem em projectos efectuados na Primavera. Na ruela exterior cães ganem às fêmeas enquanto uma mulher esbelta e fina que parece vinda das travessas do Inferno onde à vil miséria só algumas escapam; no braço uma tatuagem com o nome da filha, (2008 Vera).

Distante, mas não tanto que não se visse, um carro de luxo chiando os largos pneus arranca pela estrada da boa vida, pois as prostitutas por serem sérias profissionais tinham cumprido seu nobre ofício, podendo um ano mais o chulo ir gozar as vacances para Nice e ser tratado pelas madames como emissário de Deus. De relance, apresentava-se vazia o resto da avenida que a madrugada ainda dava sinais, e levantar cedo seria um longo sacrifício. 

Hesitante, à entrada ou à saída de um prédio, Libório arruma a improvisada cama. Tornara-se um dos muitos sem abrigo que escolhera o passeio como varanda e um gato cinzento como fiel companheiro, e já farto de uma existência cheia de tédio sonhara que lhe caberia um dia em sorte a fama, terminando por realizar o seu sonho mais antigo na companhia de uma famosa banda enchendo finalmente o baú com muito e honrado dinheiro.

Ainda ensonado, que pouco fora o sossego naquela noite, o pedinte atravessa a rua fora da passadeira confiando no seu único anjo da guarda; porém, na véspera, realizara-se no céu um funeral donde resultara o empobrecimento das hostes de Nosso Senhor.

Baixavam turvas, águas do rio Mondego, que a seca teimara a época inteira. No purgatório àquele pobre, saiba-se, ninguém o aguardaria, por distraído Satanás, e só para maledicência, piamente desprezado pelo Criador.


INÁCIO
11/09/2016

domingo, setembro 04, 2016

AFINAL VOLTAVAM DE PANÇA RECHEADA

Porque me traíram sem aviso prévio hoje reclamo de mim a ingenuidade de ter entregue as armas em vez de disparar contra quem me pagava magro salário enquanto a outros fornecia senhas para combustível, repasto na "messe de "capitães" e prostitutas nos hotéis situados nos paraísos duma democracia que se veria "più tardi" corrupta...
...e o que mais causa receio nesta foto é o soldado deitado no chão empunhando uma arma enquanto civis dialogam com os "soldadinhos de chumbo".



VI NASCER FLORES
(AFINAL VOLTAVAM DE PANÇA RECHEADA)


Sem germinar floriram em rocha fria e dura
cravos despontados nos canos das espingardas,
originando desalojados c' lágrimas já em fuga
escutando a imbecilidade bramar às armas,
conhecendo q'apontarem a u' Homem indefeso
tanques dirigidos por militares garbosos,
mandatáros de quem saíra de certa guerra ileso
passeando folgado longe de turras perigosos.
- E eu, vi garotos opados de gravatas vermelhas
fugitivos levando prudente 'mêdo na bagagem,
arrombadas portas e janelas telhados sem telhas
e até viajantes que não pagavam a passagem!
_ muito mais tenho guardado para mencionar
assim o tempo que passa me dê prazo e lugar.

Chegasse todavia uma vaga de perfume africano
inundada de mesclados odores de nha gente
reparando tempos em que me viram insano
rasgaria 'versos:_ sobre o que nos apoquente,
que por terras de loiros alguns d'água oxigenada
só saciei desejos à base de rápidos orgasmos
pensando um dia, pelo toque mágico duma fada,
ressuscitaria a amada aceite os pleonasmos, 
e um dia lançarei todos 'meus erros ao inferno,
frases apalavrando o que não quero admitir 
pois neste país 'Outonos precederam o Inverno
que 'nha febre era doença que teria de omitir,
e justo à proa dum navio que se fará ao largo
mentalmente aliviar-se-á este pesado fardo.

- Porém o já vivido da memória não s'afaga
nem c' ferramentas a dor de ver-se confundido
por ter perdido um ente querido se apaga,
sem monstrar penitência por ver-s'arrependido.
- Afinal 'flores sempre nascem nos canos d'aço,
tanques têm lagartas, dúvidas q' aqui desfaço


Cito Loio
01/09/2016
Primeiro escrito de Setembro 
(Poemas sem data nem valor)


***

















sexta-feira, setembro 02, 2016

PANO DE FUNDO

Coloquei este foto em pano de fundo porque a memória não morre, serem os sonhos asas da fantasia,  e a arte uma mera teimosia quando falta engenho ao poeta por trajar a cores a desventura...e confesso, também a mim ter faltado o talento de colocar nos acordes da ternura notas construídas com lisura, o colorido paradisíaco da paixão numa vontade que perdura, extinguindo-se em lume brando...

***



PANO DE FUNDO


Construí cidades tendo por pano de fundo
sorrisos de pessoas que não confundo,
demonstração de afectos sem maldade,
iguais a mim, idosos, tangida 'meia idade
pintando quadros com alvas pombas,
corando o rosto c' imperceptíveis sombras.

Alguns, pescadores de barcaças sem velas
solícitos pregadores de coisas belas
carpinteiros com cursos tirados na vida
especializados na busca de comida
embaladores de filhos sem licenciatura
aguardando o adeus chegada a altura.

Crescido, numa rua ainda na memória
assumida heroína quase eufórica
vi-a sorridente entre confusa multidão
trazendo ao dependuro 'mala de mão,
e no andar o convite que faltava
para poder dizer, eis o que esperava!

E abandonei por ela deveres escolares,
mulheres ostentando ricos colares,
indígenas coroadas c' lindas missangas
conquistadas nas inovadas reviangas,
e torneando largos q'escondiam 'paixão
desprezei-as ao querer ir além do coração.

 
Fazendo-se noite ao rompimento do dia
limpo o rosto por mergulhado na fantasia
dei fé dispensar-se ao céu as queixas,
nas cidades não existirem gueixas,
serem as quimeras loucuras de poetas
e nhas costas apetecíveis alvos para setas


Cito Loio
(Poemas sem data nem valor)

...e abendo que a meta do envelhecimento é a morte, aos meus deixarei este poema sublinhado por esta canção,



quinta-feira, setembro 01, 2016

QUERUBIM

 Um dia sonhei fazer poemas para Zeca
sonhos que nunca realizarei...

.


.

DISFARÇADO DE QUERUBIM


Faço riscos, traços simples que s'anexam
mansamente ao lado de palavras soltas
construindo histórias que não regressam,
(parte do currículo duma vida 'conta-gotas
extensão do que tarda, mas que revejo)
imagens amortalhadas que não comando
imitindo segredos que decidido ora protejo
cobrindo-os com capas de seco pranto.

Porém 'morna brisa que sopra já anuncia
ser cada vez mais curta o distanciamento
entre o findo e o próximo renovado dia
igual ao que me acolherá chegado 'tempo;
_ mas é na noite que dela m'alimento
enlutando de espanto a santa eternidade
e enroupando trapos de imaculado lamento
redijo missivas endereçadas à saudade.

Finda a inquietude de um dia de solidão 
descanso, disfarçado de místico querubim,
numa galhofa, sobre o picadeiro da ilusão,
aceito ovações que não são para mim.

E saltando por entre um imaginário público
uma santa d'altar, exibindo um ar profano
tomada de meneios a tanger o púdico
arrocha-se* à minha sombra por engano.


* abraçar


Cito Loio
(Poemas sem data nem valor)

QUERUBIM

 Um dia sonhei fazer poemas para Zeca
sonho que nunca realizarei...

.


.

DISFARÇADO DE QUERUBIM


Faço riscos, traços simples que s'anexam
mansamente ao lado de palavras soltas
construindo histórias que não regressam,
(parte do currículo duma vida 'conta-gotas
extensão do que tarda, mas que revejo)
imagens amortalhadas que não comando
imitindo segredos que decidido ora protejo
cobrindo-os com capas de seco pranto.

Porém 'morna brisa que sopra já anuncia
ser cada vez mais curta o distanciamento
entre o findo e o próximo renovado dia
igual ao que me acolherá chegado 'tempo;
_ mas é na noite que dela m'alimento
enlutando de espanto a santa eternidade
e enroupando trapos de imaculado lamento
redijo missivas endereçadas à saudade.

Finda a inquietude de um dia de solidão 
descanso, disfarçado de místico querubim,
numa galhofa, sobre o picadeiro da ilusão,
aceito ovações que não são para mim.

E saltando por entre um imaginário público
uma santa d'altar, exibindo um ar profano
tomada de meneios a tanger o púdico
arrocha-se* à minha sombra por engano.




Cito Loio
(Poemas sem data nem valor)

quarta-feira, agosto 31, 2016

Suores doutras vaginas


Mantive presente o seu amor até mesmo quando mergulhado em prazeres mundanos delirava encharcado em suores doutras vaginas.

E foram mais de quatro décadas a entalar uma recordação entre língua e dentes apara bafar um grito rouco de "amo-te Schi e amarei até que a morte nos una".

No virar de Agosto para o mês de todas as traições dedico este poema a todos os que ao longo desta única vida souberam respeitar o meu silêncio.



.
POEMA PARA UMA VIDA


E brindei-me com pendões de candura, fiz do tempo toalhas para banquetes e entre mergulhos no areal da praia braçadas no mar por ondas com espuma cacei pirilampos embelezados de batôn ao entardecer.

Perigado sem desaproveitar infância ganhei jogos de macaca e cabra-cega erguendo taças de fresca limonada sorvetes de manga, tremoço, ginguba; _ marisco e cerveja estranhava paladar. 

Tardaria a primeira dilecção carnal que paixões solapadas davam fartura;_ hora de esgalhar duro e teso bicho molhadela no lençol ?– Só sem gemidos que o velhote dormia no quarto ao lado.

Levantada a gelosia da juventude, coçando jeans por esplanadas dos cafés, apreciava bundas de rijas cachopas (magalas pendurados n’óculos escuros cantante a pilhas sobre os ombros.

Chegava hora de perder a virgindade, sepultar ‘adolescência em tenras coxas lavar o corredor a pano com saliva, içar o mastro dar de provar baunilha…natas a enfeitar o «pai da humanidade»

De passagem por um insondado túnel pisados palcos, já investido de Homem saquei notas dos cornos dum touro numa garraiada, e sem pagar impostos que tal ficava a cargo de nha progenitor.

Numa última queima arrecadei o boneco rasgando cheques da dependência. - Pousadas Uzis e Kalash's pegava na G3 para espalhar com cinzas sonhos que tivera desconhecendo quão dura seria a luta.

Sem retorno escondi, por terras do bravo lágrimas para do nojo não fazer alarde.



Cito Loio
(Poemas sem data nem valor)
01 a 03 de Julho de 2016

segunda-feira, agosto 29, 2016

DIA EM QUE MICKEY DESAPARECEU




 [Ofereço este conto a José Luís Caldeira Fernandes (um amigo da facebook) que afinal depois de breve troca de mensagens concluímos que já nos conhecíamos há mais de 3 décadas, da cidade de Elvas, e por curiosidade, até moravamos no mesmo prédio e piso. 
Quando a FB voltou a publicar in mmemory o conto ESTRANHO MAS ACONTECEU ofereceu-me um rasgado e inesquecível elogio. Decidi acaso escrevesse  um novo conto lho dedicaria.
Para JLCF um grande abraço e que nunca lhe aconteça o que aconteceu ao Mikey]

.
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DIA EM QUE MICKEY DESAPARECEU


.
Apanhou, de saída, um dos múltiplos livros de banda desenhada atirados despreocupadamente para cima da larga estante do escritório, ilustrações e narrativas, destinados a momentos de ócio, mas que infelizmente nem todos apreciavam optando por leituras intelectualizadas de Liev Tolstoi, Arkady Kaidar,Nikolai Gogol, Anton Tchekhov, e outros ainda que se  deleitavam com John Steinbeck ou Harper Lee. Neste campo, para além dos portugueses, há algum tempo colocara no fundo da prateleira Albert Camus, Thomas Mann, Alexandre Dumas ou mesmo Antoine de Saint-Exupéry, que para príncipe bastava os idiotas a mandarem piropos às mamalhudas que serviam às mesas nos Pub's e Cabarés normalmente situados em ruas ou locais escolhidos a dedo.

Antes de se fazer ao caminho olhou de soslaio o  calendário que marcava o dia 26 de Agosto de 1975 e reparando que o livro que pegara respeitava a um conto com Mickey, um dos personagens mais famosos de Walt Disney. Entretanto assomou à varanda do 4º andar do prédio da Cuca, contornando mentalmente o Largo Maria da Fonte  e distraídamente acenou um vulto que estava parado frente ao portão principal do mercado Quinaxixe. Rodando os calcanhares voltou para dentro da habitação, claro que a varanda fazia parte da casa mais voilá, afim de ver se tudo estaria desligado, e sacou as chaves do carro que tinha deixado na mesa de centro da sala de estar, saindo de imediato de casa não sem antes verificar se tinha fechado a porta à chave. Claro que estes pormenores são só para encher páginas, aliás como faz a maior parte dos escritores premiados, daqueles que gastam 10 folhas para explicar ao leitor que o criminoso subira 23 degraus para aceder à porta da vítima, e constatar-se no final de 10 minutos de leitura que o "futuro" morto não estava em casa, mas como não sou expert em retórica basta-me referir que o personagem principal chamou o elevador para descer ao rés-do-chão, opcção tomada, em vez de utilizar as escadas, dado o prédio ter apartamentos duplex e isso representar uma tarefa de descer 8 pisos e a perguiça (ok está mal escrito mas não me dou ao trabalho de verificar na google como se escreve Preguiça) últimamente andar no Ginásio e estar logo pela manhã fortíssima. 

Já na rua, quedou-se por breves instantes indeciso entre ir a pé ou de carro até à esplanada da Apollo XI, bar situado do outro lado da rua, bastando 1,30 minutos para atravessar o parque privado de estacionamento do prédio e a avenida dos Combatente para sentar o rabiosque e deliciar-se com Coca-cola e uma pedra de gelo. Para que ninguém fique na dúvida, foi a penantes, e a razão é simples: na véspera deixara o bólide estacionado em frente ao prédio onde se situa o bar. Um dos costumeiros gladiadores do Vodka com laranja comprara um BMW 2002 novinho em folha e desafiara o pessoal a curtir a noite pelas "boites" da city, aproveitando para meter inveja ao pessoal. 

Sentado a uma das mesas mais próximas da rua, deliciado com a coca, bebida evidente que dessas coisas não consumia - às vezes sacava uma liambazinha, mas até isso já passara à história -  começou a ler o livro quee continha não uma mas 4 histórias aos quadradinhos - e para não pensarem que estou na tanga a história começa com  Minie a entra em casa reclamando da trabalheira de ir às compras que para além de mais cansativo não se recebe e gasta-se sendo surpreendida por uma chamada do Mickey no gravador de chamadas, mostrando-se aborrecida por verificar que este estava cheio.

- Olá Minie...É o Mickey vizzz bzzz que ruídos são estes... e passando a outra gravação - Olá Mnie é a Clara-Bela... e entre uma e outra chamada a voz do Mickhey - Pchhhh.

Embrenhado na leitura não deu fé da chegada de Janino que se sentou sem um posso, e a escasso metro e meio atirando o maço de cigarros e a carteira de fósforos para cima do tampo ao mesmo tempo que estalava os dedos e esboçava um bocejo.

- Olá mano que lês algo sobre coitos ou andas outra vez numa de Immanuel Kant ou Jean-Jacques Rousseau
- Nada disso ano a instruir-me com coisas mais sérias...vê
- Walt Disney estás a ficar pirado ou andas a engongar erva
- Nada disso Janino apenas que ler essas obras cansam é só...letras negras sobre papel branco sem imagens é fastio completo
- Mudando de tema Gali onde vais logo à noite
- Ainda não decidi talvez vá passar parte da noite até à meia-noite em casa do velho ando ultimamente muito por fora e a minha mãe não merece tal ausência
- Acho bem mas é Sábado, dia de Flamingo do Quatro ou uma de penetra na festa da Milita que dá uma farra de garagem
- Se decidir ir ligo-te 
- Tchau mano
- Vai Jani.

Continuou a desfolhar o livrinho ao mesmo tempo que 3 mesas mais adiante um grupo de garinas riam a bandeiras despregadas por causa dum motociclista que no intuito de dar uma de corredor de fim de semana espetou-se ao comprido contra uma carrinha carregada de bananas, sendo maior o alarido e prejuízo material que os danos físicos do motoqueiro. Na verdade uma delas lá ia, entre risadas, dando uma espreitadela para o "Je", coisa que não o ralou, tanto mais que o pito era, mesmo sentada, um bom naco de carne virgem - penso - para não fazer juízos incorrectos, mas que se comia com ou sem hábito comia-se e disso não lhe ficaram dúvidas. No entanto fazia-se tarde e o amigo Gueiró não havia modo de dar à costa e a paciência começava a esgotar-se por ter de pegar ao trabalho precisamente às 13 h - havia obrigações a cumprir e não lhe pagavam para sornar ou ficar no paleio. Evidente a razão porque esperava por ele é algo que não interessa para aqui mas e segundo confidencia, não se tratava de negócio de neguinhas nem prá veia ou charros do sul, mas que fazia jeito falar com o tipo isso era certo e afirmativo.

Nada feito, chegava a hora de zarpar, olhar convidativo com um passear de língua ao bijou, uma saída quase acompanhada com os primeiros acordes da Marcha Triunfal de Verdi e um pensamento maldoso do tipo "a gaja tá no papo", como se tal coisa fosse o pão meu de cada dia - alguns escritores faziam já um aparte para explicaram como comeram o churrasquinho levando o leitor a sacar uma de rua da palma nº 5, mas cá o rapaz não é desse tipo de contador de balelas - daí se declara que nunca mais a viu, ou pelo menos julgo que que não a viu - pelo menos não tenho memória de me terem contado tal - e largando pela avenida fora deu asas ao pensamento repassando in memory a semana anterior, duríssima. Uma constante correria entre o emprego e os bairros circundantes, viagens onde não lhe apetecia  ir, mas o dever clamara mais alto que a vontade de bardinar.

Rolava a viatura, rolava a mente, rolavam outros e sentido contrário e 17 minutos bastaram para chegar aos estacionamento privado de empresa. Carro fechado à chave não fosse  diabo tentar algum amigo-do-alheio e 5 ou 6 horas depois estar lá apenas o lugar do estacionamento. O escritório como sempre, atulhado de papelada, pedidos e cunhas, insinuações e coisas do género. Preparado o dossier para o dia carregou no pedal e, 4 horas após a chegada estava com tempo de tomar uma café. Afirmo que 3 minutos sobraram para se sentar, novamente, e pedir um café sem natas e um copo de água, preferencialmente natural. Enquanto esperava repassou a sala dando conta de haver apenas 3 pessoas - o negócio não deve ir lá muito bem, permito-me que tal escapasse em surdina. Satisfeito com a prontidão do serviço, o sabor do café, a paz que pairava na sala, pago o devido voltou para o trabalho. Pouco havia a fazer o que proporcionou o nosso diligente e produtivo trabalhador largar a labuta à hora que previra dirigindo-se para o carro e já sentado, reclinando ligeiramente o assento, fechou os olhos. Estava definitiva e inequivocamente fatigado, não pela azáfama desse dia mas do acumular de tanto esforço, e nem sequer fora para proveito próprio.

O tempo passou, um pequeno e estranho ruído trouxe-o à vida e ainda meio ensonado sentiu o livro no colo resvalar para o chão. Algo não batia certo, a visão do espaço era totalmente distorcida da realidade, o tablier diferente, e a confusão na cabeça aumentava a cada segundo permitindo que a estupefacção fosse dominante. Olhando pelo espelho retrovisor viu que a fachada do edifício tinha escrito Caixa Geral de Depósitos. À frente, um estabelecimento tipo Café Central e descaído à direita outro café este com denominação Pastelaria Flor. Mas para ele o mais estranho eram as vestes dos homens e as botas que envergavam para além duma espécie de samarra tipo capote. Abanou a cabeça, olhou para o relógio e não queria acreditar. 18 h, o sol a pino, uma calor de rachar. No capô do carro o símbolo da Mercedes, e no banco do lado do condutor um periódico com a data de Agosto de 1979. 

Estremeceu, e após breves segundos, acordado e na plenitude de todas as suas faculdades não pode deixar de sorrir ante o que afinal acontecera. Bolas estava em Elvas, a cidade onde se estabelecera, e viu que recorria mentalmente ao processo de memorização, sub e inconsciente, o quanto presente ainda estava o passado e a certeza que o tempo era só a ponte entre dois momentos sem reticências mata-borrão apagador ou modernizados cleans informáticos. Surpreendentemente o cansaço pregara a partida de obrigá-lo a adormecer indevidamente e atirar-se para uma época que teimando esquecer sentia que se faria presente para o resto da vida. Soube nesse dia que nem o passar dos anos obscureceriam o que o cérebro gravava, decidindo naquela mesma altura, pudesse, um dia escrever algo sobre o que lhe acontecera, terminando com a afirmação que a Memória não se apaga, apenas e às vezes por motivos diversos não se recorda do que não se deseja ou quer lembrar.

Corria o mês de férias, calor tórrido, o panorama nacional pintado de fogos postos que destruíam matas e plantações, casas e casebres, mas e bem pior, destroçavam a vida de muita gente que passara décadas a lutar pela sobrevivência, saboreava na esplanada do café Sunset uma bica  normal, e qual espanto, quando reparo na chegada de um homem, já pintado de branco, bronzeado naturalmente, e cuja fisionomia não me era de todo estranha. Engoli em seco, a língua refrescou os lábios e os olhos abriram-se de espanto ao ver o dito sujeito parar em ferente da mesa e rasgando um sorriso de orelha a orelha exclamar.

- Tu! só pode ser o diabo pintado de anjo não me reconheces xé mano sou o Gali.

Levantei-me bruscamente e, empurrados pela força do destino deliciámos-nos com fraterno e sentido abraço. Como era possível que passados  41 anos  aquele bimbo se lembrasse de mim. E se dúvidas restassem desvaneceram-se quando disse, sem peias, mano lembras-te de ter falado daquela fresquinha da Apolo XI a última vez que nos encontrámos no bar do aeroporto em Luanda, ao que respondi afirmativamente levando com o desabafo em tempo real.

- A desalmada não descansou enquanto não me encontrou depois do empregado lhe ter dito onde morava e nome bolas só faltou dizer o nº da conta bancária
- Como sabes que foi assim
- Confidências da noite de núpcias 

Convidei-o a sentar-se, e ao mesmo tempo que falávamos do presente foi retratando a sua vida, divórcios, filhos que o tinham abandonado e o mal que os outros filhos lhe fizeram, enfim, um rol de agruras que somadas e colocadas no papel dariam para escrever um romance tão eloquente como Os Maias. Contudo a maior surpresa surgiu no preciso momento em que, ao elucidá-lo não ter sido a minha vida igualmente um mar de rosas, ter escrito um livro para carpir mágoas  e às vezes fazer umas crónicas do leitor para um Jornal Nacional, ter-me pedido na medida da minha disponibilidade se podia colocar uma pequena passagem da sua vida em forma de conto, acaso entendesse que teria algum valor o que contara, rematando o pedido com ar de grande diplomata.

- Quanto tenho de pagar pelo trabalho
- Vai-te catar Gali




Inácio
Agosto, 26/29 de Agosto de 2016
(Terminado às 00:53 Sábado)


sábado, agosto 27, 2016

PILARES DA MINHA VIDA



Quantas as vezes que mudei de rumo, reavaliei o caminho, intentei reconstruir os pilares da vida acabando por cair sem vacilar nos erros que farão parte da minha própria história.



Um dia, por certo, esbarrarei no último obstáculo e em definitivo encontrarei o fim da estrada, desde o dia em que cheguei ao momento em que partirei sem arrependimentos.



REVELIA DAS INVESTIDURAS


Passeio estremado envolto pela neblina
experimentand’uma olência indecifrável,
(composto de bravura com sagacidade)
solta no esvoaçar de uma fina cabeleira,
trânsito pelo quintal roncos de segredo
traduzido num vai não tenhas medo… 
…e no pentagrama desta quadra presente
versos para uma balada desconhecida,
mote aceite de uma revolução vindoura
que não se fará à revelia das investiduras.
- Cantando os poetas, dobrando ‘esquina
surge claro na praceta, vazio inegociável,
imagem retratada, precária virgindade 
desprovida de promessas, finda a feira,
mercadejando mil ilusões a custo baixo
panorama pictórico em que me encaixo.
-Aqui no palco de uma vaidade patente,
plano horizontal do desfecho da vida,
apetecia-me agarrar um pau de vassoura
e sem peias acabar com as cavalgaduras.
- Porém, instaurada ‘vernácula demagogia
atroz forma conspurcada de governação
eleita a ralé mandante, os pobres d’espírito
deleitam-se c’ doces chibatadas no lombo,
rogo destes e seguintes anos de tormenta
que a água quente afinal não esquenta;
_ sem que a revolta tome lugares merecidos
cai o povo da carroça, e os burros seguirão
admitindo c’ palmas abjecta escravatura
que lhe dará liberdade de votar com fome
- Num tempo que tombarão da noite fria
verdades sobre um passado sem revolução,
erguer-se-á ‘voz do último trovador lírico,
que jamais contando na dita Torre do Tombo
editará surpresas, sem ecrãs e sem anúncio,
poemas, que apercebidos, serão ‘prenúncio
do futuro facilitador das vidas dos bandidos
donos de nada, herdeiros duma nobre nação
submersa nas vagas oceânicas da desventura
já sem língua pátria que ao mundo incomode.

***

Num tempo q’ há-de vir restará meu sonho,
construído com pilares de dúvidas e certezas,
lavradas peripécias que ninguém exaltará.

***

Animados, sigam lendo que não me oponho,
pois chegado ‘dia nada tendo, sem tibiezas,
por vós, celso no Olimpo, este poeta chorará.

.
.
Cito Loio
Iniciado em 12/12/2015
Terminado em 11/01/2016









PILARES DA MINHA VIDA



Quantas as vezes que mudei de rumo, reavaliei o caminho, intentei reconstruir os pilares da vida acabando por cair sem vacilar nos erros que farão parte da história da minha vida.


Um dia, por certo, esbarrarei no último obstáculo e em definitivo encontrarei o fim da estrada, desde o dia em que cheguei ao momento em que partirei sem arrependimentos.


REVELIA DAS INVESTIDURAS


Passeio estremado envolto pela neblina
experimentand’uma olência indecifrável,
(composto de bravura com sagacidade)
solta no esvoaçar de uma fina cabeleira,
trânsito pelo quintal roncos de segredo
traduzido num vai não tenhas medo… 
…e no pentagrama desta quadra presente
versos para uma balada desconhecida,
mote aceite de uma revolução vindoura
que não se fará à revelia das investiduras.
- Cantando os poetas, dobrando ‘esquina
surge claro na praceta, vazio inegociável,
imagem retratada, precária virgindade 
desprovida de promessas, finda a feira,
mercadejando mil ilusões a custo baixo
panorama pictórico em que me encaixo.
-Aqui no palco de uma vaidade patente,
plano horizontal do desfecho da vida,
apetecia-me agarrar um pau de vassoura
e sem peias acabar com as cavalgaduras.
- Porém, instaurada ‘vernácula demagogia
atroz forma conspurcada de governação
eleita a ralé mandante, os pobres d’espírito
deleitam-se c’ doces chibatadas no lombo,
rogo destes e seguintes anos de tormenta
que a água quente afinal não esquenta;
_ sem que a revolta tome lugares merecidos
cai o povo da carroça, e os burros seguirão
admitindo c’ palmas abjecta escravatura
que lhe dará liberdade de votar com fome
- Num tempo que tombarão da noite fria
verdades sobre um passado sem revolução,
erguer-se-á ‘voz do último trovador lírico,
que jamais contando na dita Torre do Tombo
editará surpresas, sem ecrãs e sem anúncio,
poemas, que apercebidos, serão ‘prenúncio
do futuro facilitador das vidas dos bandidos
donos de nada, herdeiros duma nobre nação
submersa nas vagas oceânicas da desventura
já sem língua pátria que ao mundo incomode.

***

Num tempo q’ há-de vir restará meu sonho,
construído com pilares de dúvidas e certezas,
lavradas peripécias que ninguém exaltará.

***

Animados, sigam lendo que não me oponho,
pois chegado ‘dia nada tendo, sem tibiezas,
por vós, celso no Olimpo, este poeta chorará.

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Cito Loio
Iniciado em 12/12/2015
Terminado em 11/01/2016









 
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