domingo, janeiro 24, 2016

Uma questão de imposto





NÃO PAGUEM IVA





Resolutamente pus de parte o vinho
trocando-o pelo sumo vaginal,
aconselhando o mesmo ao vizinho.
- Retorquiu, provei e soube-me mal.

Pensei então, este prefere espumante
pascer bacalhau ao pequeno-almoço,
ou trocou a mulher pela amante
julgando que o camarão… é tremoço !!!
- Comigo soube sempre a champanhe
que bebidas a assistir coisas picantes
nada melhor que as acompanhe…
que sucos – licor de Baco era dantes.

Qual espanto nesse fim-de-semana,
cruzando-me c’o esquisito casualmente
ele disse– Ontem até rangeu a cama
daí fico-me c’ a esposa para sempre…
…coisas da vida amigo com sentido
que sumos naturais são do baril,
e cá o rapaz vai morrer convencido
um dia a orgasmos s’encherá u’ barril

Desandei na cara um sorriso de troça
humedecendo os lábios com saliva
soltando sem intenção – puxa nossa
que os minetes nunca paguem Iva!


Cito Loio


sexta-feira, janeiro 22, 2016

A Título Póstumo





A Título Póstumo

Sinceramente já não lhe sentia qualquer sentimento de repúdio, raiva, desprezo, antes era tão só mais um dos homens que achavam que patifes portugueses que trabalhavam em África comiam pretinhos ao pequeno almoço e estropiavam as mães lançando as tripas ao rio Bengo...enquanto os maridos, briosos combatentes dos movimentos revolucionários iam pelas «Europas»  comendo loiras depois do jantar. 

Que encontre finalmente a paz, que a terra lhe seja leve ou o vento lhe espalhe as cinzas, mas por certo nunca tocará as estrelas porque…



AS ESTRELAS SÃO DO POVO


Catem todas ‘pulgas sitiadas atrás da orelha
tosquiem os casacos feitos de pêlo d’ovelha
engraxem os sapatos com pele de burro
e se me ouvirem cantar saltem um urro;
_ joguem ovos moles aplaudam com vaias,
mas sendo mulheres dispam as saias
que melhor ficarão trajando colorido saiote,
opinação minha já do tempo de rapazote,
esse que me ficou de costume atrevido
de apalpar ‘traseiro às donzelas de vestido
quedando ímpar e ainda estóico costume
de não guardar engenhoso azedume
ao fazer das noites parceira de sobressaltos
e encolhido na cama projectava assaltos
ao armário da directora da escola primária
colorindo de rosa a montra da funerária
botando travesso olhar às mulheres da vida
tão dela como qualquer que andasse perdida,
símil ao órfão, vindo do ventre de mãe
ignorante u’ dia enlutar-se pela avó também.

Calem ademais as pulgas que não mordem
mas sorrateiramente provocam desordem,
e acaso o vosso catar tiver alguma piada
organizem um comício, não pagarão nada…
_ gritem pulmões ao vento de norte a sul
«É desta que o céu finalmente se fará azul
os pobres culpados não escaparão à miséria
mãe solteira não passará duma galdéria»
catando ‘pulgas do velho e do novo regime
sem que digam, traição não constitui crime.

Catem pulgas até as que s’anunciam liberais
presumindo, filiadas em facções normais,
e por arrependimento iniciem tudo de novo
porque as estelas sempre foram do povo…


Coito Loio

quarta-feira, janeiro 20, 2016

GolungoAlto



 

Até qualquer dia...





VINDO DO GOLUNGO ALTO


Inenarráveis foram tantas curvas apertadas
que se obrigou a imaginação a palmilhar,
atalhos por onde após furibundas dentadas
cicatrizava nas trevas chagas, sem arrulhar.

Penetrando madrugada fora, já serenado,
desenhou a caneta de tinta permanente
espectros q’ o deixaram absorto e intrigado
escarnecendo de si perante ‘amor ausente

Inclinado ao caderno, margens infringidas,
pôs os nomes que faltaram às promessas,
de ajuizadas mulheres que sabia já perdidas
(Filomenas Anas Martas Rutes e Vanessas!)

Obtida a madureza, envergando uma farda,
desembestou para o ar, evitando os iguais
que vestiam optativamente roupagem parda
na maioria das vezes – paga por seus pais.

Esquivado ao ultraje regressou às correrias,
carregador das expectativa destroçadas
e bens perdidos a favor doutras confrarias,
ganhos os troféus prescindindo da caça…

Sem estoiros d’amigos hóspedes de caserna
sujeitou-se à repatriação pela democracia,
precisado de residência com cães à perna
longe da sepultara de quem jamais o trairia

Mendigando por travessas aos trambolhões,
ergueu castelos no ar carecidos de alicerces
ao reviver no africano troar a luz dos trovões
duma guerra que só durara treze preces (a)

Esquecido pelos q’antes fugiam dos canhões,
colhido numa zebra branca em negro asfalto
a caminho da sopa dos pobres, surdos pregões,
morria um ex-colono (vindo) do Golungo Alto

Possuía nome c’ apelido que nunca constou
do incomparável livro «Viva a Malta do Liceu»
que ‘presidente Eduardo dos Santos avalizou,
desconhecedor, terem incluído nele o meu

Virá um anoitecer que não se fará o dia tarde,
e tal Bocage, que não serei, desfeito ao vento
à cova escura, colhido por repentino enfarte,
terão as minhas cinzas o mesmo seguimento.



Cito Loio
Terminado a 09/01/2016

(a) 1961 a 1974


 
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